Exercício: Boca
Tua boca betty boop desenhada por batom de brilho, desses que se pintam com pincel, não aqueles nipofálicos; tua boca como em beijo, semi-aberta, semialerta, a língua apenas vislumbrada no escuro vermelho; tua boca se movendo, se abrindo e se rasgando, vogais e consoantes.
Os lábios de tua boca, finos, esculturas gregas, persesinfônicos, um tempo de fome e outro de fartura, gritos gemidos, agora são ainda mais lábios de mármore, teus lábios finos se crispam, embranquecem.
Teu rosto em nosso vídeo, tirei o som da tv, não quero de ouvir, apenas memorizar o tempo em que tua boca era naif, era sem dentes a me devorar, me fez mingau, era teu manjar com merengue e ameixas e você me sugava para você, boca ventosa que trazia a tempestade para mim.
Teus olhos apertados de astigmata à luz, escondidos atrás dos cílios longos que te envaideciam, naturais, as pequenas rugas, marcas de rusgas com a vida, como tributários de lágrimas que molharam seu rosto tantas vezes, emoção feita mulher, causadas por mim ou não, sal de tua tristeza que temperou minha culpa.
Tirei o som da tv, paralisei teu rosto, tua boca em um "a" desejado perpétuo.
É minha resposta ao teu silêncio, ao bilhete que não deixaste, testamento da nossa vida que esqueceras quando ela se foi. Tirei o som da tv para não receber esta tua mensagem tão modernamente gravada em fita perene. Não te ouço dizer que não me ama, nem nunca amou, que o que pensou ser amor era somente carinho e que mesmo este se acabou numa tarde enevoada de um passado que não passei contigo.
Vejo apenas tua boca aberta em a de amor, como se ainda me chamasse.
Sam 2002
1 Comments:
ólá, tudo bem?
ah, o fim ficou tão triste...
o texto foi quase um romper de lembranças que passavam muito rápido e no fim teve aquele tom nostálgico e sem esperanças...
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