terça-feira, dezembro 28, 2004

Pintas

Não sei, estas coisas simplesmente acontecem, não é assim? Se me perguntam quando começou, não poderei dizer, não foi de estalo, mas em um crescendo de imaginações, olhares, vestidos, blusas e sapatos. O início mais claro para mim foi uma blusa simples, realmente despretensiosa, dessas que as mulheres usam para ir na padaria ou no mercado, com um decote em “v” que nada mais mostrava do que um colo, nem o contorno dos seios ou o rego entre eles, nada. A pele exposta naquela pequena porção de seu corpo, mais um pouco dos ombros, onde nasce a bursite. Era clara e sardenta, ou não eram sardas aquelas pintinhas?, e os lábios brilhando de batom. Tudo muito discreto, muito pudico, muito simples e ainda assim meus olhos não deixavam o seu colo. Estava tão obcecado que essa inesperada fixação me intimidou e reuni meus esforços para disfarçar minha volúpia. Tinha que me controlar, ela era casada, argumentei introspectivo, nunca deu qualquer margem de dúvida sobre si mesma e de seu recato pequeno-burguês. Ergui meus olhos e me vi encarado pelos olhos dela, uma expressão entre curiosa e irritada. Uma mulher sempre sabe onde olhamos e o que pensamos nessas horas e este pensamento me embaraçou de tal modo que senti as orelhas arderem e desviei o rosto para a janela, torcendo para acabar a reunião e voltar para meu cubículo onde o trabalho afastaria a imagem daquele pedaço de corpo. Deus é pai, fomos dispensados e fui para minha mesa com a maior rapidez que a dignidade permitiu. As horas passaram, era já depois do expediente, eu havia me atrasado com algumas regulações de sinistro quando percebi o vulto parado, me observando por sobre a divisória baixa. Entregou-me um maço de papéis a mando do gerente e vi mais um pouco dela, pela manga da blusa, a pele fina e branca da axila depilada. A garganta secou, a língua inchou e balbuciei um agradecimento para o sorriso que ela me deu, os lábios brilhantes, mais ainda, pelo batom retocado. Fábio Júnior soprou melodia na minha cabeça: “quando gira o mundo e alguém chega ao fundo de um ser humano...”. Separados pelo painel de mdf do meu cubículo, descobri-me desapossado de mim mesmo, res derelicta desejando ser propriedade. Em uma experiência sobrenatural, saí de meu corpo, elevando-se e de cima vi meu braço esquerdo esticar e a mão segurar-lhe a nuca e minha cabeça se projetou por sobre a divisória, roubando um beijo daquela boca e senti o gosto adocicado de fruta madura. Ou estava tudo em câmara lenta ou ela resistiu a si própria, pois demorou a desvencilhar-se de minha boca e do braço que a segurava com suave firmeza. Eu a vi deslizar, como se ela também flutuasse, para entro do meu cubículo e me abraçar como quem acha a fonte desejada, me beijando como quem mata sede ancestral. Ao ser abraçado meu corpo recuou sobre a mesa, espalhando pastas e dossiês e, sem apoio, ela me deitou, sem largar meus lábios, as mãos agora me invadindo por baixo da camisa, pelo cós da calça. De cima, vi meu pau ser sacado, erguido e preso pela mão fina de unhas pintadas de um rosa pálido e só aí pude respirar aos haustos, a boca livre daquela língua que passou a se ocupar do meu caralho, enquanto girava a mão, como se fosse desrosqueá-lo, a boca quente e úmida massageando-me e me encharcando. Ela ergueu a saia apenas o suficiente para montar-me e cravar-me em sua buceta. Buceta que era boca a mastigar meu pau, macerando-o, até tirar-lhe o sumo e restar um pedaço entristecido de mim. Ainda galopou alguns segundos antes de um gemido rouco, baixo, contido. Desmontou, cabeça baixa, ajustou a calcinha que afastara um pouco na penetração e murmurou, ofegante: nunca mais!

Sam, 2005