Exercício: Olhos
Olhos negros, que me ensombrecem e me desnudam, enquanto à noite solitário em minha cama remôo meu passado, tendo à cabeceira teus olhos estáticos, brilhantes pela luz da tv, esta minha companheira fria de insônia eterna.
Os cílios longos esculpidos pelo rímel e que me faziam sonhar quando eu ainda fazia parte de teus sonhos e que agora parecem apontar-me culpas, longos dedos a acusar minha fraqueza. Você brincava ao se maquiar, fingindo piscadas paqueradoras com estes seus cílios de sedução de desenho animado.
O próprio desenho de teus olhos, gemas lapidadas para ornarem tiaras reais, mais redondo que oval, e que se arregalavam fascinados com as minhas mentiras inconvincentes, fingindo acreditar em cada palavra, cada ilusão criada, de que eu possuía a lua e a te daria, que meu cavalo branco estava no veterinário, esgotado de me suportar em minha longa aventura em busca de minha princesa: você. Até que um dia minha mentira maior te entristeceu, te fez adormecer envenenada pela desconfiança e meus beijos não ousaram te acordar.
E teus olhos negros se fecharam, afogados em lágrimas, minha imaginação não coube em nossa vida, minhas fantasias rasgaram o véu da realidade e você me viu como nunca uma mulher pode perceber seu homem: humanamente fraco, viciado, submetido a desejos e comandos ancestrais, de um tempo em que não havia rímel e a palavra não criava mentiras.
Foi a última vez que vi teus olhos vivos, me perdoe ser eu.
Sam, 2004
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