Annabella
Durante a vida um homem conhece, desconhece, estranha, se aproxima e se afasta incontáveis vezes de inúmeras pessoas, sendo por todas marcado, por raras de modo indelével, por algumas profundamente e pela maioria, apenas na superfície. As marcas feitas a fogo, por paixão, ainda que não se dê conta da profundidade ou até do instrumento que as riscou, estas são aquelas que, por suposto retiradas após cirurgias, só o foram na epiderme, remanescendo intocadas na carne viva. Parecem esquecidas no passado em que foram criadas, mas basta um sopro, um movimento diferente, uma virada o tempo e fazem-se presentes e trazem de volta todos os seus significados.
O que aconteceu foi algo comum e nesses casos fica difícil não usar alguns clichês. Ele fora visitar um amigo, ex-colega de trabalho, na empresa em que havia trabalhado alguns anos antes; iam conversar um pouco e depois almoçariam, aproveitando que era sexta-feira e não haveria tanta pressa de voltar ao escritório. De acordo com as regras da empresa, tinha que esperá-lo na recepção geral e lá estava quando, subindo as escadas da recepção, veio uma mulher nova, os cabelos longos loiros e levemente ondulados, repartidos jovialmente no lado, rindo francamente de algo que a amiga que vinha a seu lado dissera. O gosto com que ela ria, a boca de lábios grossos se abrindo para o descortino de dentes sobrenaturais de tão brancos, um rosto de zigomas salientes que lhe davam uma expressão faceira, isso chamou sua atenção de um modo irresistível e somente após alguns instantes dedicados a absorver aquele impacto inicial seus olhos desceram pelo corpo da mulher. Um corpo de presença, bem nutrido, na clássica forma de violão, enquadrado em um conjunto de calça comprida e blusa, um decote que se fingia generoso para ao final nada mostrar além do colo bronzeado. Fosse ele um jovem de vinte e poucos anos e certamente teria recebido resposta dura e imediata de seu próprio corpo excitado, mas, já um cinqüentão achacado por problemas circulatórios, restringiu-se a uma mais recatada ereção mental. Era uma beleza talhada em humanidade por um artista divino que sabia como ninguém criar obras espetaculares para apreciação não de uma massa informe, mas de pessoas com especial sensibilidade para aquela virtude.
Mas o destino, como que achando pouco, pregou-lhe surpresa maior: aquela mulher tão atraente, que se tornou, em um átimo, seu ponto de fuga para a perspectiva da vida, viu-o, olhou-o bem e, após um momento de hesitação, abriu o mais maravilhoso dos sorrisos e deslizando foi em sua direção.
Ela o chamou pelo nome e ele sentiu dissolver-se de dentro para fora, que nem vítima de certos filmes de terror B, e achou-a corajosa por abraçá-lo, àquela altura um homem-pasta, e lhe dar dois beijos onde antes havia sua face. A lembrança de quem era aquela loira portentosa o liquefizera no estalo da memória e o abraço e os beijos o trouxeram de volta, ao menos sua casca e ele pode balbuciar, patético, o nome daquele kami: Annabella, sim, consoantes dobradas, porque dobrada e elevada ao infinito era toda ela. O que mais o chocou, se essa palavra não é pequena demais para a emoção sentida, foi que a lembrança era menos, era de uma menina bonita, simpática e vivaz, não mais que isso até o reencontro e agora, como se o tempo houvesse guardado nele uma crisálida de botticelli que agora ressurgia afrodita!
Aquele abraço era como o primeiro do mundo, urano e gaia em comunhão criando tudo o que há no universo. Ele sentiu o calor do corpo de Annabella aquecê-lo, sentiu o cheiro que ela exalava tornar-se mais necessário que o próprio ar, a maciez de sua pele entrepercebida través das roupas era da matéria mesma de nascem os grandes poemas, a pressão daqueles braços em volta era a energia que movia as galáxias.
Aqueles dois beijos, que para qualquer observador eram apenas beijos comuns de saudação, eram os pulsares de seu coração envelhecidos se rejuvenescendo ao batimento cardíaco de um adolescente, percussão de uma orquestra celestial toda em dois estalidos. A umidade daqueles lábios regou a pele dele e orvalhou seu espírito.
Mas, crueldade máxima, causadora de um sentir lancinante, foi quando Annabella, sem desgarrar-se dele, olhou com olhos que também eram sorrisos bem dentro de sua alma e então lê compreendeu todo o prazer e toda dor do mundo, a fragilidade inconsútil de sua condição humana ante o Poder verdadeiro, porque consciente de que ela detinha o controle de sua vida, de sua morte e de seu renascimento. E então ela disse que sentia saudades dele.
Nem punhal, veneno ou arma de fogo; nem bala de canhão, bomba nuclear ou gás mortal poderia ser mais destruidor do que a declaração, resumida naquela única e especial palavra, de que ela sentira falta dele. Uma mão delicada, de unhas bem feitas, porém intangível atravessou-lhe o peito e tomou seu “eu” mais protegido e escondido e trouxe-o para fora e o expôs: frágil, inseguro, mínimo, dominado.
Ela o soltou, mas não o libertou, deu-lhe a tortura final de mais dois beijos na face, reclamou um novo encontro, um almoço ou um chopinho e se foi para o elevador, desculpando-se pela pressa.
Deixou-o lá, uma coisa amorfa, ameba de noventa quilos, siderado, cativo e depois e sempre morto, fulminado por Annabella; dividido entre nada e tudo, preso ao desejo de ser desejo, ressuscitado por Annabella para uma vida prometida de esperança.
Pobre homem.
Sam, 2005
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