Paraíso
É já tarde da noite, não sei nem quero saber as horas. Debruçado na janela de meu quarto olho a madrugada calada que se abre de quando em vez para o grito de um algum notívago, uma gargalhada bêbada, um escapamento desmiolado de moto. Uma brisa resistente me traz o cheiro úmido que precede o nascer do sol. Está quente.
Acendo mais um cigarro, quase inconsciente do vício continuado e o luzir da brasa me faz lembrar antiga e reiterada resolução de deixar de ser idiota. Um trago de culpa e os pulmões cheios de fumaça me tranqüilizam, encolhidos em seu início insinuante de enfisema ou câncer ou ambos.
Desisto de dormir, apenas tomo banho e me visto para o trabalho, deixando a camisa no encosto de uma cadeira para não me abafar de todo. Está quente.
À hora de sempre, bebo um café e mastigo uma fatia de pão-de-forma com manteiga, visto a camisa, desço, cumprimento o porteiro que me retribui com um chiste provocador sobre a derrota de meu time de futebol na noite anterior. Por educação, xingo o time dele, rimos, ele me entrega o jornal e seu saio à rua sob céu azul acizentado. Está quente.
No ponto de ônibus, me chama a atenção uma mulher que conversa animada com uma amiga. José de Alencar a diria cor de jambo, outro de cor de pecado, aquela pele morena. Os cabelos negros e longos fingiam-se presos por uma fita vermelha, se não de seda, similar, enlaçada da nuca até o alto da cabeça, emoldurando seu rosto redondo. Meu ônibus é irregular em sua freqüência e olhar a mulher me distrai o tempo.
Coloco óculos escuros para poder observá-la com mais calma e menos constrangimento, meu e dela, com minha insistência em olhar. Mais baixa do que alta, seu corpo se envolve em uma blusa de tecido estampado, transparente como parece estar na moda, deixando ver o sutiã preto, simples, sem renda ou adornos. Aliás, desnecessários adornos ou rendas quando sustentam belos seios como imaginei serem os daquela mulher pela curva suave, levemente abaulada, de suas formas. São seios fartos, mas sem exageros, separados entre si pela distância de um lábio. Está quente.
Aqueles seios me levaram a um lugar que vi em fotos, lugar de uma queda d’água chamada, como sói ocorrer com tais acidentes, “Véu de Noiva”, quando um rio passava por entre duas formações rochosas gêmeas e despencava em vapores por algumas dezenas (ou centenas?) de metros. Rio de águas refrescantes. Está quente.
Ri silencioso e encabulado de minha associação de idéias. Há quanto tempo não transava? Quantos dias mediavam aquela manhã da última noite tórrida entre lençóis com uma mulher sob meu corpo? Se parei para lembrar, é que era tempo demais.
Imerso nessas elucubrações hormonais, quase perco o ônibus, sendo resgatado pelo movimento e esbarrões à minha volta. De modo automático, subi a escada e enfiei-me entre os outros passageiros, todos entalados e enlatados no coletivo, cheio de estudantes e trabalhadores apressados em chegarem a seus destinos. Não consegui avançar muito e estaquei no centro do corredor entre as duas filas de pessoas postadas ao pé dos bancos duplos, à minha frente um sujeito obeso e suado que usava ambas as mãos para se segurar nas barras fixadas no teto. Devia ser bancário, com sua camisa social azul clara de manga curta de tecido e corte baratos, um gravata de cor predominante vinho e calça jeans apoiada no topo de largas nádegas, pois mais para cima seria impossível abotoá-la contra uma enorme barriga que pendia de seu tórax! Devia ser enorme, pelo menos à face da distância entre o bancário gordo e a bunda à sua frente!
Desisto do bancário e me viro de frente para as janelas laterais do ônibus, para ver a paisagem concreta de prédios e casas da cidade por sobre uma cabeça irrequieta. É a cabeça da mulher que eu observara no ponto de ônibus e, neste instante, graças a uma curva, percebo que aquela cabeça estava ainda acompanhada pelo corpo, jogado para trás, para mim. Está quente.
O ônibus está lotado, culpa não é minha e Deus é Pai, não há de abandonar seus filhos, ainda que pródigos ou ingratos, penso como que me desculpando à morena por premir-lhe as costas, quiçá um pouco da bunda, com minha pélvis. Ela não me nota, sequer olha para trás, mantendo-se loquaz na conversa com a amiga ao seu lado, também em pé. Está quente.
Tentando desviar a minha atenção de sua bunda, tento captar detalhes de seu rosto em perfil. A testa larga desponta quase reta entre os cabelos e encima olhos pretos ou castanho-escuros que se debatem de um alto para outro, do rosto da amiga para além e depois para fora do ônibus para retornarem o mesmo percurso, aleatoriamente.
Acelera. Freia. Curva. Meu corpo colado no da morena e reagindo mecanicamente ao atrito, ao movimento e à pressão. Sangue em tecido cavernoso, fico obviamente excitado e me assusto se a obviedade é sentida pela morena, mas ela continua falando com a amiga. Me envergonho perante eu mesmo ao me ver como um daqueles adolescentes a tirarem sarros das bundas das meninas em aglomerações quaisquer, seja em passeatas estudantis, seja em ônibus, seja em fila... Está quente.
A amiga da morena me percebe e me lança um olhar que acho ser de furiosa e contida indignação, mas desconheço se por estar colado à sua amiga ou se por não estar colado à sua bunda...Noto a amiga: é pintada de loira, mas as raízes dos fios de cabelo recomeçam a enegrecer...Mais uma “paquita” desiludida? Ou somente mais uma a utilizar-se do incrível arsenal de armas e ardis femininos de sedução? Não sei, não quis saber, todo centrado que estava na morena. Me pergunto porque a loira não me denunciou à morena.
Perco meu contato com a realidade, minha visão ocular fixa em um ponto qualquer deste horizonte mutável que se deslinda pela janela do ônibus enquanto meu outro olho, o da ilusão, o olho da visão oscular se mira e se perde em sua visão...Divago. Está quente.
Deixei o ônibus trafegando com meu corpo dentro e vou de súbito para uma réstia de praia espremida entre morros de mata verde e o mar. Vejo a morena chegar, vestindo a mesma blusa agora diáfana e uma minissaia de couro...Numa mão as sandálias de seus pés descalços, na outra uma bolsa de viagem, quase um saco de marinheiro. Ela vem caminhando pela areia, passa por mim sem me perceber e segue por uma picada na mata...
Acompanho seu andar, agora mais dançado, os quadris em largos movimentos de pêndulo, mais coleante porque se move na areia da praia, os pés nus afundando no chão macio. Está quente, mas há refrigério no ar.
Corte.
A morena sai da mata. Os mesmos quadris envoltos em um pano de estampa indiana estilizada, os seios, contidos em um sutiã de biquíni vermelho. Os cabelos agora estão soltos e cheios, emolduram seu rosto. Distingo as curvas da cintura...O umbigo centrado...A barriguinha... Está quente, sopra uma brisa da terra para o mar.
Ela se aproxima e vou minimalizando. Vejo seus pelinhos do braço aloirados de sol no contraste com a tez bronzeada. Vejo seus braços agitados buscando o equilíbrio...As mãos remando com graça, como sereia do ar. A estreita trilha de penugem que nasce no umbigo e descai para dentro da canga.
Estou sentado na beira da água, cavando e construindo castelos de areia molhada, línguas de água do mar cavando seus caminhos. Está quente.
Ela para à beira d’água, um pouco distante de mim, estica a canga na area e corre para a água, os pés chutando a espuma, depois as cristas, já aí ela aos pequenos pulos. Vejo seus seios acompanhando aos pulos os pequenos pulos, depois eles se escondem atrás de suas costas. Os quadris disfarçados por um pouco de tecido em triângulo que começava onde deveria acabar e terminava como um cinto fino em torno da cintura.
Interessante a fixação humana por esta especial parte da anatomia...Homens e mulheres se olham nos olhos e depois, havendo a oportunidade, estudam, admiram e desejam aquela carnuda região uns dos outros, eles delas, elas deles e, para ser moderno, tá bom, eles deles e elas delas, conforme cada um. No caso da morena, era toda redonda, cheia, plena, um mundo, como a Terra, achatada nos pólos...
Lembrei Tim Maia soando na minha cabeça..."Desbravador dos Sete Mares". O sol queimava minha pele e ofuscava meus olhos reforçado pela luminosidade refletida na areia branca e na água. Está quente. Tiro a roupa e de cueca entro no mar.
Dou azar...Ela saiu, foi para a areia e, afogado na minha frustração, acompanho seu corpo deslizar e deitar na areia. Já não tenho timidez alguma, regurgitei minha vergonha na salinidade e parto decidido para a morena de biquíni vermelho deitada na areia até lhe fazer sombra. Minha cueca pode ser confundida com uma sunga, penso repentinamente aliviado.
Puxo conversa, qualquer coisa, falo do tempo, da beleza do local...Pergunto se é nativa ou visita...Olho para as mãos, vejo um anel dourado no anular da mão esquerda. Tentando ser discreto, perscruto a vizinhança temendo encontrar o outro anel vindo na direção da minha boca como jóia de punho cerrado, mas nada há, só a mata balançando na brisa.
Ela é simpática, talvez receptiva, e me sento ao seu lado, cada vez mais falante, mas reduzo a verborragia me lembrando de um desses conselhos tão repetidos em revistas sobre agradar às mulheres: gostam de homens mais quietos, que saibam (pareçam?) ouvi-las. Quem muito fala de si pouca importância dá á ela, dizem os magazines...
O sol se põe, rápido como por-do-sol em sonhos e uma lua inimaginável se posta no céu. Desconfio que não sonho mais, minha imaginação não criaria algo assim...A pele da morena se eriça, um pouco pela temperatura que caiu com o astro-rei, um pouco, quero acreditar, pela excitação de minha eloquência. Os bicos dos seios enrijecem e sobressaem sob o tecido do biquíni. Que seja de tesão!, oro.
Sou todo concentração em palavras, gestos, nuances, tentando fazer minha linguagem corporal tão persuasiva quanto espero esteja sendo meu pequeno discurso amoroso. Ela sorri e me faz ainda mais falante e me lembra que devo ser também ouvinte e a ouço fingindo atenção, a mente toda sufocada pelas sensações de prazer que me irradiava aquele corpo tão próximo do meu.
Um silêncio desceu, apenas nos olhamos e, como nos filmes, resolvi beijar aquela boca que estava entreaberta em meio a uma palavra qualquer. Um beijo suave, quase tímido, medroso da rejeição, que depois aqueceu-se, turbinou-se e converteu-se em tumulto de lábios e línguas enquanto nos colávamos um ao outro e eu sentia a pressão de seus seios e de seu quadril em mim. Autômatos, nos deitamos eu sobre ela, para inverter e me deixar dominar por aquela boca me sugando, os cabelos longos dela emoldurando nossos rostos, velando-os a qualquer curiosidade de estrelas e tatuís.
Antes de qualquer intenção emergisse em mim ela caçou-me em meu calção, me expôs, me provou faminta, quis me extinguir em sua garganta. Subiu pela minha barriga, mordiscou-me mamilos, me cegou com a visão de seu colo. Ágil, me montou, cavalo manso, quase um pangaré, escondi-me dentro dela.
Ela se pôs sobre mim ereta, amazona de cabelos longos, soltou o nó do sutiã e me transportou a outro sistema solar, a outro planeta, um sol moreno que me sorria, duas luas brancas, assolado por abalos sísmicos como jovem geo. E era domadora, bailarina, martelo, tempestade.
Tempestade que veio se formando, se avolumando, em sons, vento e fluidos, até um grande estrondo e então gritos e gemidos.
A minha cabeça doía, senti o gosto de sangue, mas não consegui me mexer, achei que batera em algo duro como ferro. Abri os olhos dentro de um mar de sangue, corpos empilhados acima de mim. Alguém falou algo sobre uma batida terrível. Ouvi sirenes. A voz fria de um homem disse que eu estava muito ferido e gritou com alguém que talvez eu não resistisse às hemorragias. Senti-me morrer. Cheguei a um tunel escuro e longe uma luz muito brilhante me chamava. Corri sentindo o corpo pesado, plúmbeo, atravessei a luz. Cheguei na praia. A mulher de cabelos longos me olhava nos olhos com um sorriso aberto e tranquilo. "Estamos juntos para sempre."
Sam
0 Comments:
Postar um comentário
<< Home