Aprés Botero

Tomou o banho distraída, pensando no dia estressante que teve no trabalho, na lida diária pela sobrevivência neste mundo cão, sonhando em por a camisola, ligar a tv do quarto e esquecer das horas até adormecer.
Pegou uma camisola e só após vesti-la percebeu que era aquela que o ex-marido lhe presenteara no por do sol do seu casamento, naquela última noite em que ele ofereceu todo o romantismo que negava fazia meses e depois do amor ao qual se entregaram com toda a alegria de jovens em plena ebulição hormonal, que já não seriam mais, ele contou que estava apaixonado por outra e que queria a separação.
Quis tirar fora a camisola, mas um reflexo na cômoda atraiu sua atenção, era o prateado da câmara digital que comprou para melhor registrar os momentos que teria com o ex, antes dele se tornar ex. Um misto de raiva e frustração a fez pegar a câmera para jogar pela janela ou no lixo mesmo, gesto simbólico, e aí se viu no espelho do armário, vestida com a camisola ´pequena demais, diáfana demais, dolorosa demais, a pequena câmera digital na mão. Olhou-se com aquele olhar extremamente crítico com a qual uma mulher vê a si própria e se achou gorda, feia, descuidada, envelhecida, e prometeu que faria regime, se rematricularia na academia, se cuidaria de novo. Resolveu tirar uma foto naquele estado, naquelas condições, e a pregaria no espelho do banheiro para ter em mente, todo dia, que teria que se conter, disciplinar-se, para voltar a estar de bem consigo mesma e recomeçar sua vida, pois aquela mulher que via no espelho ninguém desejaria!
O flash brilhou contra o espelho e ao ver a foto na tela da máquina viu que o ângulo fora ruim, o brilho capturado cobriu seu rosto, mas ela viu os seios fartos pela transparência do tecido, a calcinha imensa, quase um short, mal coberta. Achou que era exagero, questão de ótica, ao contrário da tv, que dizem que emagrece, aquela câmera a engordara ainda mais nos quadris e nos seios. Pousou a máquina na cama e tocou de calcinha, pela menor que tinha no armário, uma de rendas, esta ela mesmo comprara algum tempo atrás, ainda casada.
Voltou para frente do espelho, posicionou a máquina um pouco oblíqua para escapar do registro do flash tirou outra foto. Os seios, grandes, pendiam entristecidos, a calcinha menor melhorara o visual dos quadris, disfarçando a barriga quarentona que antes se dobrava sobre a calçola. Gostou da melhoria, no entanto, obtida apenas com esse pequeno truque e lembrou-se das revistas masculinas que o ex-marido às vezes comprava, das poses das modelos e de que ele dissera sobre certas posições servirem para ocultar os defeitos daquelas mulheres. Os braços sempre levantados erguiam os seios ou estes eram apoiados pelos braços passados à frente. O jeito de deitar, cruzar ou abrir as pernas, truques de fotógrafos, mesmo antes do photoshop.
Deitou-se na cama para estudar poses em que ficaria mais atraente, mais sexy, para obter uma recarga m sua auto-estima antes do enfrentamento do regime e dos exercícios. Ter a imagem em que estava péssima serviria de estímulo, mas também a incentivaria fotos que mostrassem as possibilidades que os sacrifícios certamente, os aperfeiçoamentos que poderiam ser realizados. Quem sabe uma lipo, no final do processo, esculpisse em seu corpo aquele corpo que já teve um dia.
Como referência, colocou a máquina digital na cômoda em frente à cama e imaginou que ali estava o olhar masculino que queria agradar e se deitou, imaginando quais gestos aguçariam a volúpia masculina, quais de seus predicados deveriam ser ressaltados, quais poderiam ser apenas sugeridos e o que haveria de ser ocultado.
Entre os lençóis, juntou os seios, apertando-os um contra o outro, sentindo o tecido fino da camisola escorregar pelos bicos em um toque suave, quase uma carícia, fazendo a pele arrepiar-se involuntariamente, enquanto a pressão das mãos a aqueciam; ao ver os pelinhos se eriçarem, quis ser mais provocante para o olho eletrônico que a apreciava de sobre a cômoda e deslizou suas mãos por sobre o corpo, fazendo com que a maciez do tecido acarinhasse a pele fina dos peitos, os mamilos eretos, descendo pela barriga até a renda da calcinha e daí, ainda por cima, o grelo, a parte interna das coxas.
Se imaginando coquete, como em um strip tease para seu amante, abaixou a calcinha até os pés, onde ficou pendurada, girando e depois voou até um canto qualquer do quarto.
Ela se levantou e programou o timer da câmera e voltou para aquela posição: as pernas um nadinha entreabertas, a mão direita não mais sobre e sim sob a calcinha, a mão esquerda apertando o seio e agora não era mais ela se mostrando para seu amante imaginário, mas ele próprio que a tocava, que a descortinava para a câmera, enquanto ela sentia seu dedo penetrá-la e a respiração se tornava ofegante na espera de algo mais. Como nos sonhos, não via o rosto do amante, mas sentia sua mão enconchar sua buceta, os dedos entrando e saindo, a palma acariciando seu grelo, o prazer crescendo, se reapresentando, ainda que insatisfatório, incompleto, se insinuando numa promessa de gozo.
O brilho do flash a assustou e ao amante, que se evaporou como um dom joão acovardado pela chegada de um marido ciumento. Da cômoda, um piscar maroto da máquina e ela se descobriu.
Sam
29.8.2005
4 Comments:
Seguindo um raciocínio lógico comum, este conto retrata seu lado oculto feminino? *r*
Beijos no lado masculino
*rrrr* Será que estou descobrindo um lado feminino? E ainda por cima homo?
Há que se averiguar... Vai que o povo tem razão e o que escrevemos é produto de nosso inconsciente?
Gostei da imagem, aliás, gosto de posts ilustrados. Parece que ficam mais completos.
Beijos imaginados
gostei do texto... muito ilustrativo..risos
beijossssssssss
Postar um comentário
<< Home