terça-feira, agosto 16, 2005

A boca

Chamava-se Gerválsio Cascanheira, jornalista da Tribuna, e havia sido incumbido pelo editor-chefe de buscar reportagens com apelo humano para aumentar a tiragem do jornal, acabando por dar com os costados na cidade de X. A reportagem que escreveu jamais foi publicada, o editor-chefe achou-a indecente e veiculá-la afastaria o leitores e anunciantes, em especial aqueles de uma certa igreja e empresas a ela vinculadas.

Gerválsio sabia que na cidade de X, como em tantas outras espalhada pelo Brasil, existiam as mulheres que não davam (só para o marido e ponto!), as que davam com alguma generosidade, mas sem muita publicidade; e, enfim, aquelas que não davam, mas alugavam a preços variados. Ao lá chegar numa viagem de trabalho e após se hospedar em um hotel barato mas limpo, procurou saber com o recepcionista onde encontraria mulheres generosas e discretas, com o quê economizaria algum dinheiro da diária, ou mesmo as que não são nem generosas, nem discretas, mas que poderiam lhe fazer companhia por uma ou duas noites.

O homem, solícito, olhou-o com um ar cúmplice e um sorriso concupiscente e declinou o endereço de um bar e de um puteiro. Gerválsio foi ao bar, tentar economizar os trocados, mas não foi feliz nas minhas tentativas de abordagem, talvez porque nisso há também um “quê” local, uma forma e palavras que não são universais e o que agrada em uma cidade, pode ser ofensivo em outra. Coisas de choque cultural, nada a fazer.

Parti então para a opção, esta sim universal, onde não é necessário conhecer-se nada que já não se saiba e onde as intenções, estas sim, falam por si e são conhecidas muito antecipadamente por qualquer um que lá entre; a dúvida, quando muito, é de preço.

Era um puteiro comum, nada dessa sofisticação de disfarçar-se de boate ou de uisqueria, uma sala de luz pálida, uma imagem de São Jorge em um canto alto iluminado por uma pequena lâmpada vermelha, músicas românticas brasileiras e estrangeiras na trilha sonora ambiente. Algumas mulheres de roupas sumárias, uma ou outra apenas de biquíni, inquietas, descansando e se expondo. O mais antigo maquetingue do mundo funcionando como há séculos atrás!

Gerválsio pediu uma cerveja ao velho atrás de um pequeno balcão, ele sumiu por uma porta e voltou com uma garrafa e dois copos, mão estendida para o pagamento, recebeu e não deu o troco miúdo, voltando para seu banquinho.

O jornalista manteve-se de pé, observando as mulheres sentadas, as mulheres andando pela sala em um desfile de promessas, na clientela diversificada de trabalhadores e estudantes que entravam e sem muita demora pegavam na mão de uma das mulheres e saiam com ela por um corredor aos fundos. Ele queria trepar, mas algo do ranço profissional o fazia querer apreciar um pouco a realidade se mexendo à sua volta e depois de quase uma hora percebeu que uma mulher em especial já saíra e retornara com clientes por três vezes e estava agora sendo levada pelo quarto. Esperou-a voltar para melhor apreender sua forma e feições, mas a casa estava movimentada e ela era a mais requisitada.

Curioso como deve ser um repórter, decidiu pegá-la e assim ter algum tempo para entender tanto sucesso, já que não lhe pareceu ser bonita e seu corpo parecia já bastante cansado daquela tal vida fácil. No mínimo, arrumava uma trepada, quem sabe até barata, talvez fosse esse seu maior apelo.

Não era. Seca, declamou sua tabela de preços: o quarto é tanto, boquete é isso, normal é quanto e atrás, o dobro. Barba, cabelo e bigode tinha desconto. Olhou detidamente a mulher e notou que falava sem quase abrir a boca, os peitos vislumbrados pelo espaço do decote eram pequenos e caídos, a barriga saliente, as coxas finas. Ele maldisse a curiosidade que o aprisionara e seguiu com a mulher para os fundos, após pedir o pacote completo para decifrar o enigma em todos os seus aspectos.

No pequeno quarto, uma cama de casal, uma penteadeira, uma mesinha de cabeceira, tudo velho, um conjunto de móveis desses que se compra em loja popular em parcelas a perder de vista. Profissional, ela despiu-se e, ajoelhando-se à sua frente, abaixou a calça e a cueca de Gerválsio, expondo um pau murcho, desmotivado.

Aí, do caos nasceu a luz! A mulher pôs a boca no pau e com movimentos falsamente aleatórios, ora circulares, ora de vai-e-vem, a língua cobreando pela circunferência, da base à cabeça, iniciou um boquete em que a pressão dos lábios e a sucção que ela produzia fizeram rapidamente o que era um pênis transformar-se no que a literatura pornô chama de mastro!

Gerválsio não conseguia acreditar na sensação absurda de prazer que vinha daquela boca e, entrando pelo pau, secava sua mente, expulsava a razão, paralisava o coração e fazia todo o sangue de seu corpo acorrer para o seu caralho. Um último pensamento foi o medo de gangrenar o cacete com tanto sangue preso ou de desfalecer, enquanto os olhos não desgrudavam daquela boca voraz que massageava com força e delicadeza.

Que técnica, a daquela mulher! Qualquer outra não o faria sentir tanto prazer e ele sentia apenas a maciez aveludada daqueles lábios, a pressão negativa no interior daquela boca, a firmeza como mantinha o caralho apesar dos movimentos rápidos e às vezes bruscos.

E a língua! Deus e Diabos, que língua, era mais que uma língua, era um ser vivo com vontade própria.

De repente, ela parou, mantendo o cacete todo dentro da boca, imóvels, e começou a mastigá-lo sem ferir a fina pele, da base para a ponta e ele começou a gozar, numa intensidade nunca sentida, por um tempo inaudito, até virar-se do avesso no momento da ejaculação. Sim, achou-se virado do avesso e suas pernas fraquejaram, enquanto ela o soltava e discretamente despejava o conteúdo numa bacia que tirou debaixo da cama.

Ele se ajoelhou em frente à mulher, ela se deitou na cama, pernas entreabertas, esperando-o. Ele pediu desculpas, mas não tinha forças, ela precisaria esperar. Ela negou, o trato não previa isso, que ele pagasse o pacote, esmo que não o consumisse. Atordoado, ele levantou a calça que estivera aos pés, vestiu-a, sacou da carteira o preço do pacote, balbuciou um agradecimento. Pela única vez, ela sorriu: uma boca sem dentes se abriu em um rasgo divertido e ele, rápido, ganhou a rua com a sensação de ter presenciado uma espécie de milagre da natureza. Estava saciado, completamente satisfeito, vazio de desejos e quereres.

Sam
16.08.2005