No avião
Todos acomodados, enfim, cintos afivelados, pego o livro que comprei na livraria do aeroporto e começo a leitura. Pouco depois percebo que minha vizinha, quem sabe possuída por um ranço de expansionismo germânico, toma para si todo o braço de poltrona que nos separa e delimita nossos territórios pessoais. Tento o processo usual de muda negociação, uma pressão leve seguida da ocupação da parte anterior do braço da poltrona, abandonando a parte posterior para ela, quase dois terços da área de disputa, mas a espaçosa ou não conhece as sutilezas das viagens aéreas ou é mesmo uma cascuda mais competitiva do que o normal.
Aquilo me estressa e recebo a resistência como ofensa pessoal, uma bofetada na cara e o que era uma pressão suave torna-se rapidamente um cabo-de-guerra invertido e ela, talvez temendo a derrota, faz caras e muxoxos, mas não me comove ou demove. Ela se desespera, reclama, clama em voz alta respeito e educação.
Estranhamente, porque afeiçoado a disputas verbais e polêmicas, apenas encaro aqueles olhos verdes, impassível, impossível, mantendo minhas posições no “teatro de guerra”.
Volto para minha leitura.
O marido, alcançado pela movimentação da esposa, pergunta qual o problema e ela responde apontando para mim e numa algaravia, queixa-se de mim. EM um primeiro momento o marido discute com ela, meio que sem saber se deve atendê-la, mas depois seu senso de honra conjugal prevalece e, pedindo desculpas ao vizinho, sai do assento e chega próximo de mim, em franco gestual de intimidação, ditando palavrões e ameaças.
Novamente me surpreendo com a minha plácida reação, minha tranqüilidade absoluta e, qual um lama às portas do nirvana, apenas sorrio o mais beatífico dos sorrisos; acho mesmo que inclinei um pouco a cabeça para a esquerda, como um papa abençoando os fiéis na praça, o que o desarma.
Ato contínuo, ainda com um ar santo, viro-me para a mulher e, sem dar tempo a quem quer que seja para reagir, seguro seu rosto com as mãos, delicada, mas firmemente, e dou-lhe um beijo, minha língua invadindo a sua boca. Beijo-a como se sentisse paixão, por um ou dois segundos e, como se nada houvesse acontecido, volto ao livro.
Os gritos que ouço à minha volta chegam-se abafado, distantes, de um lugar qualquer longe no tempo e no espaço, absorto que estou na leitura.
Protegido pela intangível e recém descoberta armadura zen, vejo o marido levantar-se atrapalhado com o cinto de segurança, passando por cima do passageiro do seu lado, crescendo muito, mas muito próximo de mim, enquanto guardo meu livro no bolso situado à frente de minha poltrona, como dizem as comissárias nas instruções de bordo.
Desato o cinto e também me levanto e o marido, entendendo que eu atendia seu convite à luta, recua um pouco para armar seu golpe.
Com minhas mãos erguidas e juntas como em uma oração ou monge budista em amável cumprimento, sorrio meu melhor sorriso de inocência, digno de um Jesus cristo de folhinha, e me desmancho em mesuras e desculpas, assumindo meu erro, confessando minha insensatez e concordando com ele que eu fora desrespeitoso e merecia um tiro, que ele tinha todo o direito de “enfiar-me a porrada”, etc., e ele, mais calmo pela minha atitude contrita, lançou-me algumas ofensas graves e baixas e depois exigiu que eu parasse de importunar sua esposa, o que prometi e jurei fazer.
Satisfeito com a idéia de ter subjugado o louco importunador, mesmo que insaciado em seu desejo de matar-me, ele voltou ao seu assento e afivelou o cinto de segurança; quase distraidamente, sob os olhares de horror de todos, fiz o mesmo
Virei-me para minha vizinha, ainda sentindo seu gosto m minha boca e repeti a ela, íris com íris, toda a cantilena de arrependimento que entoara a seu marido, enquanto repousava minha mão esquerda, com incrível naturalidade, em sua coxa, aninhando-a na sua virilha.
Meu corpo ocultava meus gestos de quem estava do lado direito do avião e ela, talvez temendo uma confusão incontornável e violenta a milhares de metros de altitude, a mulher manteve-se paralisada até que terminei minha penitência e voltei ao meu livro, não abandonando a leitura até o pouso.
Desembarcando, na longa fila indiana entre o avião e o terminal, quis o destino que terminasse logo atrás da mulher enquanto o resto da família seguia um pouco à frente tentando acalmar o marido que, de tão irritado, andava muito rápido gesticulando e resmungando. Cheguei-me a ela e sussurrei-lhe se não ia se despedir de mim. Ela parou, deu uma prolongada e reflexiva olhada para sua família que se afastava nervosa e, voltando apenas o rosto para mim, beijou-me como eu antes fizera a ela, para depois, em uma corridinha ridícula, juntar-se ao marido e aos filhos.
Saí do aeroporto e acendi um cigarro, feliz com a minha tranqüilidade monástica.
Sam
04.08.2005
1 Comments:
A Viagem rendeu hein? *r*
Gosto de te ler sabia?
Beijos de leitora assídua
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