segunda-feira, agosto 22, 2005

Sexo na cidade



Era já madrugada alta, e ele mais alto do que isso, de tanto uísque ingerido na boate no afã de afogar a timidez e a depressão que vinha mais uma vez assombrá-lo e algumas centenas de metros mais tarde, parou na calçada tentando orientar-se no tempo, no espaço e nas decisões importantes que tinha que tomar, as escolhas a fazer, na cabeça trombeteou a frase (de um filme?): “Você não é outra coisa que não produto das suas próprias escolhas”, acordando-o da letargia alcoólica em que caíra, ainda que de pé, e ele sopesando as alternativas, entre voltar só para casa ou arriscar outro lugar. Olhou no pulso o relógio, réplica de Breitling, vendo a hora tardia, hora em que nem num puteiro acharia mulher.

Voltar para casa, então, pois se não há opções, não há alternativas, nem, portanto, decisão a tomar, apenas seguir o fluxo contínuo ditado pelas circunstâncias implacáveis de tempo e espaço, na relatividade absoluta de ser e não ser um homem, pois que se é homem frente a uma mulher, do contrário se é simplesmente humano e ele era, mas não naquele instante e queria com todas as forças voltar a ser, homem, com uma mulher querida e desejável, por cima, por baixo e de lado, fazendo carinho, sexo, loucuras, madrugada a dentro, dentro dela pela madrugada a fora.

Entrou desavisado em uma rua mais estreita, meio imersa na penumbra, e se encostou no poste de lâmpada queimada para, à sua sombra noturna, mijar um pouco, quem sabe desanuviar a mente, e quase adormeceu assim, com a testa apoiada no poste, as mãos segurando o pau acovardado entre as mãos, não fosse o tuc-tuc abafado que ressoava entre os muros altos daquela rua estreita e curta, e a moça seguia apressada por aquele atalho, fazendo-se segura no andar de quem se crê sozinha à vista apenas de fantasmas, despreocupada em seu vestido preto de decote moderno.

Ele a viu e a coragem voltou-lhe ao pinto enquanto apreciava de seu camarote escuro, detrás do poste, a menina deslizar percussão pelo meio do asfalto, eqüidistante dos esconderijos possíveis de malandros e tarados, falando ao celular agitada, como quem narra uma noite emocionante e não como alguém que quer tranqüilizar os pais, estava com certeza descrevendo os rapazes, quem sabe até os beijos e as bolinações aproveitadas na boate.

Ele a viu passar e de sua tocaia atacou-a por trás - leão agarrando a zebra na savana, uma mão tampando-lhe a boca, outra lhe enlaçando carinhosa, mas firmemente, a cintura e erguendo-a para melhor arrastar até a sua toca provisória à sombra do poste mijado, enquanto cochichava-lhe segredos e conselhos, dizia-lhe que ela era gostosa e linda, que se apaixonara por ela à primeira vista, que ela não precisaria gritar, nem temer, mas estar aberta ao amor, a envolver-se, não se fechar para o mundo, para os sentimentos, para ele.

Com destreza, passou um braço pelas axilas da menina e com a mão manteve-a de boca calada e a outra mão afastou a calcinha, deixando livre o caminho para sua piroca entrar e não se fez de rogada, a pica, indo de uma estocada para dentro daquela buceta, tudo facilitado pelo debater de pernas da cativa no esforço de se soltar com o predador atrás e o poste na frente, espremendo-a, enquanto seu pau mordia uma, duas, três vezes...Ela gritava abafada pela mão agressora, ele gemia arfante até murmurar prolongado, sentindo esvair-se dentro dela.

Recuperou a respiração, mantendo a gazela presa enquanto a aconselhava sobre o futuro imediato, a virtude de não olhar para trás nem para o passado, seguir sempre em frente, célere, como Ló às suas filha e esposa. Liberou a menina com um empurrão forte e novamente se ocultou na sombra do poste, vendo-a correr obediente, quase tropeçando no medo.

Quis sorrir, mas não conseguiu: desejara uma mulher para ser dela o homem e nem humano mais era. Perdeu-se no caminho, descobriu-se só animal, sem certo ou errado, sem amor ou moral. Esperou a menina sumir no fim da rua e tomou o sentido inverso, se sentindo sujo, como se escorresse sangue de sua boca, como se fosse uma hiena insaciada. Queria se esconder, temendo que a menina tivesse já chamado alguém. Iriam achá-lo, seria preso ou logo linchado e a morte o alcançaria em seu piro momento, Fugiu para casa, um Mr. Hyde que não tinha nada de bom para voltar a ser, apenas ele mesmo e a compreensão exata de que não teria retorno ou perdão e que nõ era homem, nem humano, era só um covarde, uma besta incapaz de amar e ser amado, um desvio da natureza, andando nas ruas da cidade a procura do sexo violento, do sexo de repulsa, do sexo roubado. Era domingo, estava com sono, depois pensaria em tudo aquilo.

Sam, 2005

3 Comments:

At 3:58 PM, Blogger miriamics said...

É bem curioso como coloca questões fundamentais do ser humano entremeados num texto aparentemente puramente erótico.
Viagem minha?
Beijos viajados

 
At 3:58 PM, Blogger miriamics said...

BTW, só eu comento aqui é????
beijos, sem comentários

 
At 5:12 PM, Blogger Sam said...

É fato...Acho ue só você me lê!
Beijos comensais.

 

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