Autoretrato em teu espelho

De tudo que um pouco sou
- mentiras, fantasias, sonhos -
Devo a ti, não me negues
Minha própria falsidentidade.
Quem me faz é tua vontade
De ter em mim algo que não possuo
Porque se tenho, não sou eu
Mas é para você, meu.
Quem me vê é teu desejo
Que se faz minha imagem
Sou o que queres que seja
Sou o que de mais podes ter.
É minha criadora, pigmaleoa
Em tua cama, me despes,
Monta-me, esculpe,
Tua boca polindo a pedra
Pintado em tela de teu lençol
Com tintas de teu prazer
Não me deixa seco,
Galateu.
Numa hora, me abandonas
Oculta-me, acabrunhada
Sou tua obra mais obscena
Do que falo, teus lábios conhecem.
Noutra hora, me cobre
Esconde-me, sou cobra
Temes minha peçonha
Tira-a às golfadas .
Por fim, vazio
Esvaeço, por consumido
Sem mais teu desejo.
Apenas um reflexo em teu espelho.
Sm
03.02.2006
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