sexta-feira, março 03, 2006

Autoretrato em teu espelho


De tudo que um pouco sou

- mentiras, fantasias, sonhos -

Devo a ti, não me negues

Minha própria falsidentidade.


Quem me faz é tua vontade

De ter em mim algo que não possuo

Porque se tenho, não sou eu

Mas é para você, meu.


Quem me vê é teu desejo

Que se faz minha imagem

Sou o que queres que seja

Sou o que de mais podes ter.


É minha criadora, pigmaleoa

Em tua cama, me despes,

Monta-me, esculpe,

Tua boca polindo a pedra


Pintado em tela de teu lençol

Com tintas de teu prazer

Não me deixa seco,

Galateu.


Numa hora, me abandonas

Oculta-me, acabrunhada

Sou tua obra mais obscena

Do que falo, teus lábios conhecem.


Noutra hora, me cobre

Esconde-me, sou cobra

Temes minha peçonha

Tira-a às golfadas .


Por fim, vazio

Esvaeço, por consumido

Sem mais teu desejo.

Apenas um reflexo em teu espelho.


Sm
03.02.2006