terça-feira, dezembro 28, 2004

Exercício: Boca

Tua boca betty boop desenhada por batom de brilho, desses que se pintam com pincel, não aqueles nipofálicos; tua boca como em beijo, semi-aberta, semialerta, a língua apenas vislumbrada no escuro vermelho; tua boca se movendo, se abrindo e se rasgando, vogais e consoantes.
Os lábios de tua boca, finos, esculturas gregas, persesinfônicos, um tempo de fome e outro de fartura, gritos gemidos, agora são ainda mais lábios de mármore, teus lábios finos se crispam, embranquecem.
Teu rosto em nosso vídeo, tirei o som da tv, não quero de ouvir, apenas memorizar o tempo em que tua boca era naif, era sem dentes a me devorar, me fez mingau, era teu manjar com merengue e ameixas e você me sugava para você, boca ventosa que trazia a tempestade para mim.
Teus olhos apertados de astigmata à luz, escondidos atrás dos cílios longos que te envaideciam, naturais, as pequenas rugas, marcas de rusgas com a vida, como tributários de lágrimas que molharam seu rosto tantas vezes, emoção feita mulher, causadas por mim ou não, sal de tua tristeza que temperou minha culpa.
Tirei o som da tv, paralisei teu rosto, tua boca em um "a" desejado perpétuo.
É minha resposta ao teu silêncio, ao bilhete que não deixaste, testamento da nossa vida que esqueceras quando ela se foi. Tirei o som da tv para não receber esta tua mensagem tão modernamente gravada em fita perene. Não te ouço dizer que não me ama, nem nunca amou, que o que pensou ser amor era somente carinho e que mesmo este se acabou numa tarde enevoada de um passado que não passei contigo.
Vejo apenas tua boca aberta em a de amor, como se ainda me chamasse.

Sam 2002

Pintas

Não sei, estas coisas simplesmente acontecem, não é assim? Se me perguntam quando começou, não poderei dizer, não foi de estalo, mas em um crescendo de imaginações, olhares, vestidos, blusas e sapatos. O início mais claro para mim foi uma blusa simples, realmente despretensiosa, dessas que as mulheres usam para ir na padaria ou no mercado, com um decote em “v” que nada mais mostrava do que um colo, nem o contorno dos seios ou o rego entre eles, nada. A pele exposta naquela pequena porção de seu corpo, mais um pouco dos ombros, onde nasce a bursite. Era clara e sardenta, ou não eram sardas aquelas pintinhas?, e os lábios brilhando de batom. Tudo muito discreto, muito pudico, muito simples e ainda assim meus olhos não deixavam o seu colo. Estava tão obcecado que essa inesperada fixação me intimidou e reuni meus esforços para disfarçar minha volúpia. Tinha que me controlar, ela era casada, argumentei introspectivo, nunca deu qualquer margem de dúvida sobre si mesma e de seu recato pequeno-burguês. Ergui meus olhos e me vi encarado pelos olhos dela, uma expressão entre curiosa e irritada. Uma mulher sempre sabe onde olhamos e o que pensamos nessas horas e este pensamento me embaraçou de tal modo que senti as orelhas arderem e desviei o rosto para a janela, torcendo para acabar a reunião e voltar para meu cubículo onde o trabalho afastaria a imagem daquele pedaço de corpo. Deus é pai, fomos dispensados e fui para minha mesa com a maior rapidez que a dignidade permitiu. As horas passaram, era já depois do expediente, eu havia me atrasado com algumas regulações de sinistro quando percebi o vulto parado, me observando por sobre a divisória baixa. Entregou-me um maço de papéis a mando do gerente e vi mais um pouco dela, pela manga da blusa, a pele fina e branca da axila depilada. A garganta secou, a língua inchou e balbuciei um agradecimento para o sorriso que ela me deu, os lábios brilhantes, mais ainda, pelo batom retocado. Fábio Júnior soprou melodia na minha cabeça: “quando gira o mundo e alguém chega ao fundo de um ser humano...”. Separados pelo painel de mdf do meu cubículo, descobri-me desapossado de mim mesmo, res derelicta desejando ser propriedade. Em uma experiência sobrenatural, saí de meu corpo, elevando-se e de cima vi meu braço esquerdo esticar e a mão segurar-lhe a nuca e minha cabeça se projetou por sobre a divisória, roubando um beijo daquela boca e senti o gosto adocicado de fruta madura. Ou estava tudo em câmara lenta ou ela resistiu a si própria, pois demorou a desvencilhar-se de minha boca e do braço que a segurava com suave firmeza. Eu a vi deslizar, como se ela também flutuasse, para entro do meu cubículo e me abraçar como quem acha a fonte desejada, me beijando como quem mata sede ancestral. Ao ser abraçado meu corpo recuou sobre a mesa, espalhando pastas e dossiês e, sem apoio, ela me deitou, sem largar meus lábios, as mãos agora me invadindo por baixo da camisa, pelo cós da calça. De cima, vi meu pau ser sacado, erguido e preso pela mão fina de unhas pintadas de um rosa pálido e só aí pude respirar aos haustos, a boca livre daquela língua que passou a se ocupar do meu caralho, enquanto girava a mão, como se fosse desrosqueá-lo, a boca quente e úmida massageando-me e me encharcando. Ela ergueu a saia apenas o suficiente para montar-me e cravar-me em sua buceta. Buceta que era boca a mastigar meu pau, macerando-o, até tirar-lhe o sumo e restar um pedaço entristecido de mim. Ainda galopou alguns segundos antes de um gemido rouco, baixo, contido. Desmontou, cabeça baixa, ajustou a calcinha que afastara um pouco na penetração e murmurou, ofegante: nunca mais!

Sam, 2005

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Me vi

Me vi descendo um morro
De longe era simples colina
De cima era alto Everest
Me vi descendo um pouco
Como um pouco a cada dia
Morro
Me vi andando um caminho
De longe era apenas uma trilha
Nela era larga estrada
Me vi andando um pouco
Como um pouco a cada dia
Carinho
Me vi nadando num rio
De longe era um córrego
Nele era um amazonas
Me vi nadando um pouco
Como um pouco a cada dia
Rio
Me vi beijando você
De cima era uma menina
De dentro era mulher
Me vi beijando um pouco
Como um pouco a cada dia
De você.

Sam
27122004

Adultério

Deixo minha peruca loira,
- Que me vestiste em um sonho -
Sobre teu criado-surdo
Ao lado de teu marido-mudo

Deixo a salada de rúcula
- Que fiz em um sonho –
Sobre a mesa de jantar,
Azeite e sal.

Deixo minha roupa molhada
Na varanda de casa
Sobre a rede, esperando
Te ter, suada.

Deixo o computador ligado
E me deito orvalhado
Na luz fria faço sombras
De animais deitados.

Te como salada,
Mordisco tua rúcula
Te azeito, rego
Salgo tuas lágrimas
De mim.
Por mim.

E volto ao meu caminho
Estrada que peregrino
Sem sentido, sem direção
Não posso seguir,
Não posso voltar
Estou preso aos meus passos
E passo dias e noites
Sonhando andar e chegar
Para não mais partir,
Para não mais caminhar
Para estar preso aos seus passos.

Sam
27.12.2004

(Estou atacado, atacando a literatura, a poesia, a língua...)

À noite

Meu suor me acorda com um toque frio
De ar condicionado, refrigério de verão
A chuva esfriando o campo, nova estação, mas
O corpo quente não se acalma, sofrido,
Retalhado entre razão e sentimento,
Desejos e pecados, culpas e tesão:
O sangue se faz vinho barato, adocicado
A carne agora é mole, toda inútil.

Uma lágrima escorre longa pela minha face
Se oculta de mim, se faz suor, me salga a pele
Adormece-me com um toque frio, condicionado
Por pecados e culpas, baratas, inúteis, facetadas
Como meus desejos, meus tesões, inverno de coração
Minha carne, minha razão!
Inconsúteis.

Sam
27.12.2004