segunda-feira, agosto 29, 2005

Aprés Botero


Tomou o banho distraída, pensando no dia estressante que teve no trabalho, na lida diária pela sobrevivência neste mundo cão, sonhando em por a camisola, ligar a tv do quarto e esquecer das horas até adormecer.

Pegou uma camisola e só após vesti-la percebeu que era aquela que o ex-marido lhe presenteara no por do sol do seu casamento, naquela última noite em que ele ofereceu todo o romantismo que negava fazia meses e depois do amor ao qual se entregaram com toda a alegria de jovens em plena ebulição hormonal, que já não seriam mais, ele contou que estava apaixonado por outra e que queria a separação.

Quis tirar fora a camisola, mas um reflexo na cômoda atraiu sua atenção, era o prateado da câmara digital que comprou para melhor registrar os momentos que teria com o ex, antes dele se tornar ex. Um misto de raiva e frustração a fez pegar a câmera para jogar pela janela ou no lixo mesmo, gesto simbólico, e aí se viu no espelho do armário, vestida com a camisola ´pequena demais, diáfana demais, dolorosa demais, a pequena câmera digital na mão. Olhou-se com aquele olhar extremamente crítico com a qual uma mulher vê a si própria e se achou gorda, feia, descuidada, envelhecida, e prometeu que faria regime, se rematricularia na academia, se cuidaria de novo. Resolveu tirar uma foto naquele estado, naquelas condições, e a pregaria no espelho do banheiro para ter em mente, todo dia, que teria que se conter, disciplinar-se, para voltar a estar de bem consigo mesma e recomeçar sua vida, pois aquela mulher que via no espelho ninguém desejaria!

O flash brilhou contra o espelho e ao ver a foto na tela da máquina viu que o ângulo fora ruim, o brilho capturado cobriu seu rosto, mas ela viu os seios fartos pela transparência do tecido, a calcinha imensa, quase um short, mal coberta. Achou que era exagero, questão de ótica, ao contrário da tv, que dizem que emagrece, aquela câmera a engordara ainda mais nos quadris e nos seios. Pousou a máquina na cama e tocou de calcinha, pela menor que tinha no armário, uma de rendas, esta ela mesmo comprara algum tempo atrás, ainda casada.

Voltou para frente do espelho, posicionou a máquina um pouco oblíqua para escapar do registro do flash tirou outra foto. Os seios, grandes, pendiam entristecidos, a calcinha menor melhorara o visual dos quadris, disfarçando a barriga quarentona que antes se dobrava sobre a calçola. Gostou da melhoria, no entanto, obtida apenas com esse pequeno truque e lembrou-se das revistas masculinas que o ex-marido às vezes comprava, das poses das modelos e de que ele dissera sobre certas posições servirem para ocultar os defeitos daquelas mulheres. Os braços sempre levantados erguiam os seios ou estes eram apoiados pelos braços passados à frente. O jeito de deitar, cruzar ou abrir as pernas, truques de fotógrafos, mesmo antes do photoshop.

Deitou-se na cama para estudar poses em que ficaria mais atraente, mais sexy, para obter uma recarga m sua auto-estima antes do enfrentamento do regime e dos exercícios. Ter a imagem em que estava péssima serviria de estímulo, mas também a incentivaria fotos que mostrassem as possibilidades que os sacrifícios certamente, os aperfeiçoamentos que poderiam ser realizados. Quem sabe uma lipo, no final do processo, esculpisse em seu corpo aquele corpo que já teve um dia.

Como referência, colocou a máquina digital na cômoda em frente à cama e imaginou que ali estava o olhar masculino que queria agradar e se deitou, imaginando quais gestos aguçariam a volúpia masculina, quais de seus predicados deveriam ser ressaltados, quais poderiam ser apenas sugeridos e o que haveria de ser ocultado.

Entre os lençóis, juntou os seios, apertando-os um contra o outro, sentindo o tecido fino da camisola escorregar pelos bicos em um toque suave, quase uma carícia, fazendo a pele arrepiar-se involuntariamente, enquanto a pressão das mãos a aqueciam; ao ver os pelinhos se eriçarem, quis ser mais provocante para o olho eletrônico que a apreciava de sobre a cômoda e deslizou suas mãos por sobre o corpo, fazendo com que a maciez do tecido acarinhasse a pele fina dos peitos, os mamilos eretos, descendo pela barriga até a renda da calcinha e daí, ainda por cima, o grelo, a parte interna das coxas.

Se imaginando coquete, como em um strip tease para seu amante, abaixou a calcinha até os pés, onde ficou pendurada, girando e depois voou até um canto qualquer do quarto.

Ela se levantou e programou o timer da câmera e voltou para aquela posição: as pernas um nadinha entreabertas, a mão direita não mais sobre e sim sob a calcinha, a mão esquerda apertando o seio e agora não era mais ela se mostrando para seu amante imaginário, mas ele próprio que a tocava, que a descortinava para a câmera, enquanto ela sentia seu dedo penetrá-la e a respiração se tornava ofegante na espera de algo mais. Como nos sonhos, não via o rosto do amante, mas sentia sua mão enconchar sua buceta, os dedos entrando e saindo, a palma acariciando seu grelo, o prazer crescendo, se reapresentando, ainda que insatisfatório, incompleto, se insinuando numa promessa de gozo.

O brilho do flash a assustou e ao amante, que se evaporou como um dom joão acovardado pela chegada de um marido ciumento. Da cômoda, um piscar maroto da máquina e ela se descobriu.

Sam
29.8.2005

segunda-feira, agosto 22, 2005

Sexo na cidade



Era já madrugada alta, e ele mais alto do que isso, de tanto uísque ingerido na boate no afã de afogar a timidez e a depressão que vinha mais uma vez assombrá-lo e algumas centenas de metros mais tarde, parou na calçada tentando orientar-se no tempo, no espaço e nas decisões importantes que tinha que tomar, as escolhas a fazer, na cabeça trombeteou a frase (de um filme?): “Você não é outra coisa que não produto das suas próprias escolhas”, acordando-o da letargia alcoólica em que caíra, ainda que de pé, e ele sopesando as alternativas, entre voltar só para casa ou arriscar outro lugar. Olhou no pulso o relógio, réplica de Breitling, vendo a hora tardia, hora em que nem num puteiro acharia mulher.

Voltar para casa, então, pois se não há opções, não há alternativas, nem, portanto, decisão a tomar, apenas seguir o fluxo contínuo ditado pelas circunstâncias implacáveis de tempo e espaço, na relatividade absoluta de ser e não ser um homem, pois que se é homem frente a uma mulher, do contrário se é simplesmente humano e ele era, mas não naquele instante e queria com todas as forças voltar a ser, homem, com uma mulher querida e desejável, por cima, por baixo e de lado, fazendo carinho, sexo, loucuras, madrugada a dentro, dentro dela pela madrugada a fora.

Entrou desavisado em uma rua mais estreita, meio imersa na penumbra, e se encostou no poste de lâmpada queimada para, à sua sombra noturna, mijar um pouco, quem sabe desanuviar a mente, e quase adormeceu assim, com a testa apoiada no poste, as mãos segurando o pau acovardado entre as mãos, não fosse o tuc-tuc abafado que ressoava entre os muros altos daquela rua estreita e curta, e a moça seguia apressada por aquele atalho, fazendo-se segura no andar de quem se crê sozinha à vista apenas de fantasmas, despreocupada em seu vestido preto de decote moderno.

Ele a viu e a coragem voltou-lhe ao pinto enquanto apreciava de seu camarote escuro, detrás do poste, a menina deslizar percussão pelo meio do asfalto, eqüidistante dos esconderijos possíveis de malandros e tarados, falando ao celular agitada, como quem narra uma noite emocionante e não como alguém que quer tranqüilizar os pais, estava com certeza descrevendo os rapazes, quem sabe até os beijos e as bolinações aproveitadas na boate.

Ele a viu passar e de sua tocaia atacou-a por trás - leão agarrando a zebra na savana, uma mão tampando-lhe a boca, outra lhe enlaçando carinhosa, mas firmemente, a cintura e erguendo-a para melhor arrastar até a sua toca provisória à sombra do poste mijado, enquanto cochichava-lhe segredos e conselhos, dizia-lhe que ela era gostosa e linda, que se apaixonara por ela à primeira vista, que ela não precisaria gritar, nem temer, mas estar aberta ao amor, a envolver-se, não se fechar para o mundo, para os sentimentos, para ele.

Com destreza, passou um braço pelas axilas da menina e com a mão manteve-a de boca calada e a outra mão afastou a calcinha, deixando livre o caminho para sua piroca entrar e não se fez de rogada, a pica, indo de uma estocada para dentro daquela buceta, tudo facilitado pelo debater de pernas da cativa no esforço de se soltar com o predador atrás e o poste na frente, espremendo-a, enquanto seu pau mordia uma, duas, três vezes...Ela gritava abafada pela mão agressora, ele gemia arfante até murmurar prolongado, sentindo esvair-se dentro dela.

Recuperou a respiração, mantendo a gazela presa enquanto a aconselhava sobre o futuro imediato, a virtude de não olhar para trás nem para o passado, seguir sempre em frente, célere, como Ló às suas filha e esposa. Liberou a menina com um empurrão forte e novamente se ocultou na sombra do poste, vendo-a correr obediente, quase tropeçando no medo.

Quis sorrir, mas não conseguiu: desejara uma mulher para ser dela o homem e nem humano mais era. Perdeu-se no caminho, descobriu-se só animal, sem certo ou errado, sem amor ou moral. Esperou a menina sumir no fim da rua e tomou o sentido inverso, se sentindo sujo, como se escorresse sangue de sua boca, como se fosse uma hiena insaciada. Queria se esconder, temendo que a menina tivesse já chamado alguém. Iriam achá-lo, seria preso ou logo linchado e a morte o alcançaria em seu piro momento, Fugiu para casa, um Mr. Hyde que não tinha nada de bom para voltar a ser, apenas ele mesmo e a compreensão exata de que não teria retorno ou perdão e que nõ era homem, nem humano, era só um covarde, uma besta incapaz de amar e ser amado, um desvio da natureza, andando nas ruas da cidade a procura do sexo violento, do sexo de repulsa, do sexo roubado. Era domingo, estava com sono, depois pensaria em tudo aquilo.

Sam, 2005

terça-feira, agosto 16, 2005

A boca

Chamava-se Gerválsio Cascanheira, jornalista da Tribuna, e havia sido incumbido pelo editor-chefe de buscar reportagens com apelo humano para aumentar a tiragem do jornal, acabando por dar com os costados na cidade de X. A reportagem que escreveu jamais foi publicada, o editor-chefe achou-a indecente e veiculá-la afastaria o leitores e anunciantes, em especial aqueles de uma certa igreja e empresas a ela vinculadas.

Gerválsio sabia que na cidade de X, como em tantas outras espalhada pelo Brasil, existiam as mulheres que não davam (só para o marido e ponto!), as que davam com alguma generosidade, mas sem muita publicidade; e, enfim, aquelas que não davam, mas alugavam a preços variados. Ao lá chegar numa viagem de trabalho e após se hospedar em um hotel barato mas limpo, procurou saber com o recepcionista onde encontraria mulheres generosas e discretas, com o quê economizaria algum dinheiro da diária, ou mesmo as que não são nem generosas, nem discretas, mas que poderiam lhe fazer companhia por uma ou duas noites.

O homem, solícito, olhou-o com um ar cúmplice e um sorriso concupiscente e declinou o endereço de um bar e de um puteiro. Gerválsio foi ao bar, tentar economizar os trocados, mas não foi feliz nas minhas tentativas de abordagem, talvez porque nisso há também um “quê” local, uma forma e palavras que não são universais e o que agrada em uma cidade, pode ser ofensivo em outra. Coisas de choque cultural, nada a fazer.

Parti então para a opção, esta sim universal, onde não é necessário conhecer-se nada que já não se saiba e onde as intenções, estas sim, falam por si e são conhecidas muito antecipadamente por qualquer um que lá entre; a dúvida, quando muito, é de preço.

Era um puteiro comum, nada dessa sofisticação de disfarçar-se de boate ou de uisqueria, uma sala de luz pálida, uma imagem de São Jorge em um canto alto iluminado por uma pequena lâmpada vermelha, músicas românticas brasileiras e estrangeiras na trilha sonora ambiente. Algumas mulheres de roupas sumárias, uma ou outra apenas de biquíni, inquietas, descansando e se expondo. O mais antigo maquetingue do mundo funcionando como há séculos atrás!

Gerválsio pediu uma cerveja ao velho atrás de um pequeno balcão, ele sumiu por uma porta e voltou com uma garrafa e dois copos, mão estendida para o pagamento, recebeu e não deu o troco miúdo, voltando para seu banquinho.

O jornalista manteve-se de pé, observando as mulheres sentadas, as mulheres andando pela sala em um desfile de promessas, na clientela diversificada de trabalhadores e estudantes que entravam e sem muita demora pegavam na mão de uma das mulheres e saiam com ela por um corredor aos fundos. Ele queria trepar, mas algo do ranço profissional o fazia querer apreciar um pouco a realidade se mexendo à sua volta e depois de quase uma hora percebeu que uma mulher em especial já saíra e retornara com clientes por três vezes e estava agora sendo levada pelo quarto. Esperou-a voltar para melhor apreender sua forma e feições, mas a casa estava movimentada e ela era a mais requisitada.

Curioso como deve ser um repórter, decidiu pegá-la e assim ter algum tempo para entender tanto sucesso, já que não lhe pareceu ser bonita e seu corpo parecia já bastante cansado daquela tal vida fácil. No mínimo, arrumava uma trepada, quem sabe até barata, talvez fosse esse seu maior apelo.

Não era. Seca, declamou sua tabela de preços: o quarto é tanto, boquete é isso, normal é quanto e atrás, o dobro. Barba, cabelo e bigode tinha desconto. Olhou detidamente a mulher e notou que falava sem quase abrir a boca, os peitos vislumbrados pelo espaço do decote eram pequenos e caídos, a barriga saliente, as coxas finas. Ele maldisse a curiosidade que o aprisionara e seguiu com a mulher para os fundos, após pedir o pacote completo para decifrar o enigma em todos os seus aspectos.

No pequeno quarto, uma cama de casal, uma penteadeira, uma mesinha de cabeceira, tudo velho, um conjunto de móveis desses que se compra em loja popular em parcelas a perder de vista. Profissional, ela despiu-se e, ajoelhando-se à sua frente, abaixou a calça e a cueca de Gerválsio, expondo um pau murcho, desmotivado.

Aí, do caos nasceu a luz! A mulher pôs a boca no pau e com movimentos falsamente aleatórios, ora circulares, ora de vai-e-vem, a língua cobreando pela circunferência, da base à cabeça, iniciou um boquete em que a pressão dos lábios e a sucção que ela produzia fizeram rapidamente o que era um pênis transformar-se no que a literatura pornô chama de mastro!

Gerválsio não conseguia acreditar na sensação absurda de prazer que vinha daquela boca e, entrando pelo pau, secava sua mente, expulsava a razão, paralisava o coração e fazia todo o sangue de seu corpo acorrer para o seu caralho. Um último pensamento foi o medo de gangrenar o cacete com tanto sangue preso ou de desfalecer, enquanto os olhos não desgrudavam daquela boca voraz que massageava com força e delicadeza.

Que técnica, a daquela mulher! Qualquer outra não o faria sentir tanto prazer e ele sentia apenas a maciez aveludada daqueles lábios, a pressão negativa no interior daquela boca, a firmeza como mantinha o caralho apesar dos movimentos rápidos e às vezes bruscos.

E a língua! Deus e Diabos, que língua, era mais que uma língua, era um ser vivo com vontade própria.

De repente, ela parou, mantendo o cacete todo dentro da boca, imóvels, e começou a mastigá-lo sem ferir a fina pele, da base para a ponta e ele começou a gozar, numa intensidade nunca sentida, por um tempo inaudito, até virar-se do avesso no momento da ejaculação. Sim, achou-se virado do avesso e suas pernas fraquejaram, enquanto ela o soltava e discretamente despejava o conteúdo numa bacia que tirou debaixo da cama.

Ele se ajoelhou em frente à mulher, ela se deitou na cama, pernas entreabertas, esperando-o. Ele pediu desculpas, mas não tinha forças, ela precisaria esperar. Ela negou, o trato não previa isso, que ele pagasse o pacote, esmo que não o consumisse. Atordoado, ele levantou a calça que estivera aos pés, vestiu-a, sacou da carteira o preço do pacote, balbuciou um agradecimento. Pela única vez, ela sorriu: uma boca sem dentes se abriu em um rasgo divertido e ele, rápido, ganhou a rua com a sensação de ter presenciado uma espécie de milagre da natureza. Estava saciado, completamente satisfeito, vazio de desejos e quereres.

Sam
16.08.2005

Amor?


Nada que se faça reduzido,
Nada que não seja prazer,
Nesta selva nossa de apetites
Qual será o último fetiche?

Será nos deitarmos em relva de parque
à luz do dia, sem nos ocultar dos olhares?
Será, em pé, em boate de alguma cidade
Nossos movimentos em ritmo musical?

Será vestirmos couros e nos invertermos?
Será sermos donos e coisa?
Tudo e nada
Só feitiços...

sexta-feira, agosto 05, 2005

No avião

Acomodo-me provisoriamente em meu assento, de corredor, do lado esquerdo do avião, esperando o fechamento das portas para enfim atar o cinto. Uma moça jovem, no meio da adolescência com aquela beleza que a idade lhe dá, com uma indiferença quase nórdica pede licença; me levanto e deixo que ela passe até o assento da janela. Mal me sento novamente e chega ao meu lado o retrato amadurecido da garota, também loira, com aquele rosto polaco que se vê nos estados do Sul; levanto novamente, tentando controlar minha insatisfação, ela senta no meio e cochicha algo com a moça, evidentemente sua filha. Por quê não chegaram juntas e me poupavam? Elas olham para o outro lado do avião e vejo os que devem ser o marido e o outro filho da loira de meia-idade sentarem-se simetricamente a elas, o garoto na janela, o pai no assento do meio. Elas parecem desagradadas de estarem separadas do resto da família, mas ninguém diz nada: nem elas pedem, nem eu e o outro passageiro de corredor nos oferecemos para trocar de lugar em prol da união da família. Que chegassem mais cedo para o “check-in”, se queriam viajar juntinhos.

Todos acomodados, enfim, cintos afivelados, pego o livro que comprei na livraria do aeroporto e começo a leitura. Pouco depois percebo que minha vizinha, quem sabe possuída por um ranço de expansionismo germânico, toma para si todo o braço de poltrona que nos separa e delimita nossos territórios pessoais. Tento o processo usual de muda negociação, uma pressão leve seguida da ocupação da parte anterior do braço da poltrona, abandonando a parte posterior para ela, quase dois terços da área de disputa, mas a espaçosa ou não conhece as sutilezas das viagens aéreas ou é mesmo uma cascuda mais competitiva do que o normal.

Aquilo me estressa e recebo a resistência como ofensa pessoal, uma bofetada na cara e o que era uma pressão suave torna-se rapidamente um cabo-de-guerra invertido e ela, talvez temendo a derrota, faz caras e muxoxos, mas não me comove ou demove. Ela se desespera, reclama, clama em voz alta respeito e educação.

Estranhamente, porque afeiçoado a disputas verbais e polêmicas, apenas encaro aqueles olhos verdes, impassível, impossível, mantendo minhas posições no “teatro de guerra”.

Volto para minha leitura.

O marido, alcançado pela movimentação da esposa, pergunta qual o problema e ela responde apontando para mim e numa algaravia, queixa-se de mim. EM um primeiro momento o marido discute com ela, meio que sem saber se deve atendê-la, mas depois seu senso de honra conjugal prevalece e, pedindo desculpas ao vizinho, sai do assento e chega próximo de mim, em franco gestual de intimidação, ditando palavrões e ameaças.

Novamente me surpreendo com a minha plácida reação, minha tranqüilidade absoluta e, qual um lama às portas do nirvana, apenas sorrio o mais beatífico dos sorrisos; acho mesmo que inclinei um pouco a cabeça para a esquerda, como um papa abençoando os fiéis na praça, o que o desarma.

Ato contínuo, ainda com um ar santo, viro-me para a mulher e, sem dar tempo a quem quer que seja para reagir, seguro seu rosto com as mãos, delicada, mas firmemente, e dou-lhe um beijo, minha língua invadindo a sua boca. Beijo-a como se sentisse paixão, por um ou dois segundos e, como se nada houvesse acontecido, volto ao livro.

Os gritos que ouço à minha volta chegam-se abafado, distantes, de um lugar qualquer longe no tempo e no espaço, absorto que estou na leitura.

Protegido pela intangível e recém descoberta armadura zen, vejo o marido levantar-se atrapalhado com o cinto de segurança, passando por cima do passageiro do seu lado, crescendo muito, mas muito próximo de mim, enquanto guardo meu livro no bolso situado à frente de minha poltrona, como dizem as comissárias nas instruções de bordo.

Desato o cinto e também me levanto e o marido, entendendo que eu atendia seu convite à luta, recua um pouco para armar seu golpe.

Com minhas mãos erguidas e juntas como em uma oração ou monge budista em amável cumprimento, sorrio meu melhor sorriso de inocência, digno de um Jesus cristo de folhinha, e me desmancho em mesuras e desculpas, assumindo meu erro, confessando minha insensatez e concordando com ele que eu fora desrespeitoso e merecia um tiro, que ele tinha todo o direito de “enfiar-me a porrada”, etc., e ele, mais calmo pela minha atitude contrita, lançou-me algumas ofensas graves e baixas e depois exigiu que eu parasse de importunar sua esposa, o que prometi e jurei fazer.

Satisfeito com a idéia de ter subjugado o louco importunador, mesmo que insaciado em seu desejo de matar-me, ele voltou ao seu assento e afivelou o cinto de segurança; quase distraidamente, sob os olhares de horror de todos, fiz o mesmo

Virei-me para minha vizinha, ainda sentindo seu gosto m minha boca e repeti a ela, íris com íris, toda a cantilena de arrependimento que entoara a seu marido, enquanto repousava minha mão esquerda, com incrível naturalidade, em sua coxa, aninhando-a na sua virilha.

Meu corpo ocultava meus gestos de quem estava do lado direito do avião e ela, talvez temendo uma confusão incontornável e violenta a milhares de metros de altitude, a mulher manteve-se paralisada até que terminei minha penitência e voltei ao meu livro, não abandonando a leitura até o pouso.

Desembarcando, na longa fila indiana entre o avião e o terminal, quis o destino que terminasse logo atrás da mulher enquanto o resto da família seguia um pouco à frente tentando acalmar o marido que, de tão irritado, andava muito rápido gesticulando e resmungando. Cheguei-me a ela e sussurrei-lhe se não ia se despedir de mim. Ela parou, deu uma prolongada e reflexiva olhada para sua família que se afastava nervosa e, voltando apenas o rosto para mim, beijou-me como eu antes fizera a ela, para depois, em uma corridinha ridícula, juntar-se ao marido e aos filhos.

Saí do aeroporto e acendi um cigarro, feliz com a minha tranqüilidade monástica.

Sam

04.08.2005