sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Annabella

Durante a vida um homem conhece, desconhece, estranha, se aproxima e se afasta incontáveis vezes de inúmeras pessoas, sendo por todas marcado, por raras de modo indelével, por algumas profundamente e pela maioria, apenas na superfície. As marcas feitas a fogo, por paixão, ainda que não se dê conta da profundidade ou até do instrumento que as riscou, estas são aquelas que, por suposto retiradas após cirurgias, só o foram na epiderme, remanescendo intocadas na carne viva. Parecem esquecidas no passado em que foram criadas, mas basta um sopro, um movimento diferente, uma virada o tempo e fazem-se presentes e trazem de volta todos os seus significados.

O que aconteceu foi algo comum e nesses casos fica difícil não usar alguns clichês. Ele fora visitar um amigo, ex-colega de trabalho, na empresa em que havia trabalhado alguns anos antes; iam conversar um pouco e depois almoçariam, aproveitando que era sexta-feira e não haveria tanta pressa de voltar ao escritório. De acordo com as regras da empresa, tinha que esperá-lo na recepção geral e lá estava quando, subindo as escadas da recepção, veio uma mulher nova, os cabelos longos loiros e levemente ondulados, repartidos jovialmente no lado, rindo francamente de algo que a amiga que vinha a seu lado dissera. O gosto com que ela ria, a boca de lábios grossos se abrindo para o descortino de dentes sobrenaturais de tão brancos, um rosto de zigomas salientes que lhe davam uma expressão faceira, isso chamou sua atenção de um modo irresistível e somente após alguns instantes dedicados a absorver aquele impacto inicial seus olhos desceram pelo corpo da mulher. Um corpo de presença, bem nutrido, na clássica forma de violão, enquadrado em um conjunto de calça comprida e blusa, um decote que se fingia generoso para ao final nada mostrar além do colo bronzeado. Fosse ele um jovem de vinte e poucos anos e certamente teria recebido resposta dura e imediata de seu próprio corpo excitado, mas, já um cinqüentão achacado por problemas circulatórios, restringiu-se a uma mais recatada ereção mental. Era uma beleza talhada em humanidade por um artista divino que sabia como ninguém criar obras espetaculares para apreciação não de uma massa informe, mas de pessoas com especial sensibilidade para aquela virtude.

Mas o destino, como que achando pouco, pregou-lhe surpresa maior: aquela mulher tão atraente, que se tornou, em um átimo, seu ponto de fuga para a perspectiva da vida, viu-o, olhou-o bem e, após um momento de hesitação, abriu o mais maravilhoso dos sorrisos e deslizando foi em sua direção.

Ela o chamou pelo nome e ele sentiu dissolver-se de dentro para fora, que nem vítima de certos filmes de terror B, e achou-a corajosa por abraçá-lo, àquela altura um homem-pasta, e lhe dar dois beijos onde antes havia sua face. A lembrança de quem era aquela loira portentosa o liquefizera no estalo da memória e o abraço e os beijos o trouxeram de volta, ao menos sua casca e ele pode balbuciar, patético, o nome daquele kami: Annabella, sim, consoantes dobradas, porque dobrada e elevada ao infinito era toda ela. O que mais o chocou, se essa palavra não é pequena demais para a emoção sentida, foi que a lembrança era menos, era de uma menina bonita, simpática e vivaz, não mais que isso até o reencontro e agora, como se o tempo houvesse guardado nele uma crisálida de botticelli que agora ressurgia afrodita!

Aquele abraço era como o primeiro do mundo, urano e gaia em comunhão criando tudo o que há no universo. Ele sentiu o calor do corpo de Annabella aquecê-lo, sentiu o cheiro que ela exalava tornar-se mais necessário que o próprio ar, a maciez de sua pele entrepercebida través das roupas era da matéria mesma de nascem os grandes poemas, a pressão daqueles braços em volta era a energia que movia as galáxias.

Aqueles dois beijos, que para qualquer observador eram apenas beijos comuns de saudação, eram os pulsares de seu coração envelhecidos se rejuvenescendo ao batimento cardíaco de um adolescente, percussão de uma orquestra celestial toda em dois estalidos. A umidade daqueles lábios regou a pele dele e orvalhou seu espírito.

Mas, crueldade máxima, causadora de um sentir lancinante, foi quando Annabella, sem desgarrar-se dele, olhou com olhos que também eram sorrisos bem dentro de sua alma e então lê compreendeu todo o prazer e toda dor do mundo, a fragilidade inconsútil de sua condição humana ante o Poder verdadeiro, porque consciente de que ela detinha o controle de sua vida, de sua morte e de seu renascimento. E então ela disse que sentia saudades dele.

Nem punhal, veneno ou arma de fogo; nem bala de canhão, bomba nuclear ou gás mortal poderia ser mais destruidor do que a declaração, resumida naquela única e especial palavra, de que ela sentira falta dele. Uma mão delicada, de unhas bem feitas, porém intangível atravessou-lhe o peito e tomou seu “eu” mais protegido e escondido e trouxe-o para fora e o expôs: frágil, inseguro, mínimo, dominado.

Ela o soltou, mas não o libertou, deu-lhe a tortura final de mais dois beijos na face, reclamou um novo encontro, um almoço ou um chopinho e se foi para o elevador, desculpando-se pela pressa.

Deixou-o lá, uma coisa amorfa, ameba de noventa quilos, siderado, cativo e depois e sempre morto, fulminado por Annabella; dividido entre nada e tudo, preso ao desejo de ser desejo, ressuscitado por Annabella para uma vida prometida de esperança.

Pobre homem.

Sam, 2005

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Feliz Ano Novo!

Vai começar ano novo
Um ano velho é descartado
Um dia escolhido ao acaso
Diz o que é novo e o que é velho
Mas todo dia
Toda hora
Todo momento
É que principia.
Mas dos anos arbitrados
Se diz que o velho foi bom
O novo será ruim ou o contrário
Sem que se perceba que não é o ano
Que é isso ou aquilo
Mas o homem e sua vida
Que são julgados.


Sam, 2005

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Confissão

Eu te ouço, mas não escuto
Eu te olho, mas não vejo
Eu não digo
Eu, falo.


Sam, 2005

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Como fazer amigos e influenciar pessoas

Quando começaram a conversar para matar o tempo naquela absurda fila de banco, não esperava nada além disso, por demais consciente de que estava longe de mesmo resvalar o padrão de beleza masculina, bem como de ser aquele tipo que seduz com as palavras. Era um burocrata simplório de uma repartição pública totalmente inútil para o mundo, correndo célere para meio século de vida e acima do peso, carregando à frente uma barriga tão volumosa quanto impenitente. Os cabelos rareando na cabeça e excedendo no nariz e nos ouvidos, os pelos do tórax flácido já brancos.
Ela, uma mulher de seus quarenta e poucos anos, baixinha, com formas ainda atraentes para os que não são obcecados por garotinhas de 18 anos, os cabelos bem pintados de preto fechado, um sorriso de dentes brancos que sozinho já era uma propaganda eficaz do valor dos dentrifícios. Os lábios eram finos mas adequados ao desenho do rosto e a boca adquiria uma forma deliciosa quando ela falava, uma boca de satisfação garantida.
Enquanto falavam, ele foi percebendo esses detalhes e não pode conter a agradável sensação de calor e vida que sentiu dentro das calças, mas, envergonhado, colocou o envelope de documentos na frente para ocultar sua excitação para lá de suspeita.
Ela usava aliança de casada e ele logo descartou qualquer fantasia e ateve-se a ser simpático e aproveitar aqueles momentos que, com a companhia delicada dela, tornaram-se agradáveis como jamais uma fila foi ou será! Ela foi atendida, entretanto continuou ao lado dele até que ele também tivesse resolvido seus pagamentos e saíram juntos da agência, conversando como amigos novos assuntos amenos, ele mais ouvindo do que falando, a timidez parecendo interesse. E saíram andando e conversando no fim de tarde de inverno, o sol se encolhendo de frio atrás do horizonte; ele não precisava voltar à repartição, ela fazendo hora para buscar a filha no curso de inglês.
Pararam numa praça que já teve dias melhores de conservação, abandonada pelo poder público e pelos freqüentadores, a luz amarelenta dos postes acendendo aqui e ali, algumas lâmpadas queimadas, outras quebradas.
Conversaram até acabarem as palavras e se viram silenciosos um diante do outro, ele tentando a todo custo reencontrar um fio para retomar o diálogo, ela sorrindo com aqueles dentes e aqueles lábios com um ar gaiato, até que ela resolveu por ele e calou o silêncio com um beijo em sua boca, desses beijos que fazem pequenos sons de água murmurando entre seixos.
Seus corpos os arrastaram até um muro alto, todo grafitado, todo na sombra de árvores de copas largas, antigas, crescidas do outro lado. E se beijavam entre abraços de tenazes, os lábios como num vale-tudo com as línguas de coadjuvantes bem ativas. Ele a abraçou pelos quadris, erguendo-a e ainda mais ao vestido, sentindo as marcas da calcinha por entre a maciez do tecido, enquanto uma das mãos dela abriu-lhe o zíper da calça e pegou-lhe o pau com firmeza, fazendo nele até um pescoço insuspeitado.
O desejo atropelou carinhos e ele se encaixou entre as coxas dela, esquecido de si e do mundo, com aquela convicção quase religiosa de que no mundo apenas eles existiam. Ela pulou em sua cintura, agora o abraçando também com as pernas, a bolsa feminina, grande, pendendo do braço presa entre o abraços, enquanto ele a sentia nua com a sua imaginação desarvorada. Com uma agilidade de moleque, seus dedos afastaram a nesga de calcinha que lhe tampava o acesso completo a ela e então ele entrou como carga de cavalaria, sentindo-se forte e viril como um garanhão.
Sentiu-a morder seu pau com os lábios ocultos, massagear-lhe toda a extensão e ele quis reter o momento, reter o gozo, manter o prazer para si e pra ela.
Uma música sintetizada tocou ao seu lado e por alguns segundos pensaram que eram sinos badalando suas homenagens a eles, mas era o celular dela que chamava insistentemente. Sem se desvencilhar dele, por cima, por baixo e por dentro, ela atendeu ofegante, mordendo o lábio pra controlar-se, mantendo o movimento de vai e vem, a massagem, as mordidas.
“Oi, amor...sei...não, é que estou correndo para pegar a filhota...vou me atrasar um pouco, avisa a ela...”
Aquilo o excitou ainda mais, como se isso fosse possível, e ele achou ter crescido, penetrando mais fundo nela, como se quisesse engasgá-la por dentro para interromper aquela conversa dela com o marido.
“Ai, ai, uau...não, não foi nada...dei uma topada...eu xinguei, não ouviu...Puto...ai...tá...depois a gente se fala...beijo...também te amo...”
Desligou o aparelho e o largou ao chão, querendo contrair cada fibra, cada entrada de seu ser, e a sensação era de ser penetrada por um, dois, três...Calou-se, segurando os gemidos, segurando aquele pau e imaginando triplicado. Ele gozou dentro dela, sem barreira, sem contenção, mas ainda conseguiu manter o ritmo até que ela própria implodiu com um gemido longo e baixo.
Todas as pernas amoleceram e só não caíram porque ele havia se escorado bem no muro. Ela sorriu para lê, a cabeça pendendo pra frente quase até aconchegar-se nos ombros do amante. Ele se viu paralisado de êxtase e surpresa, tudo girando em um turbilhão de prazer, fraqueza, delírio...
Ela se separou dele, pegou um lenço de papel na bolsa, pegou o celular no chão, sorriu aquele sorriso maravilhoso. Desculpou-se, não sabia o que dera nela, não era disso, estava atrasada, tinha que buscar a filha, deu-lhe um beijo quase casto na boca e saiu correndo, talvez desnorteada pelas emoções e sensações.
Ele ficou ali, amparado pelo muro na escuridão que descera sobre o mundo, ainda esquecido de si, como em transe de uma experiência mística. Esperara quase meio século pela realização espontânea e surpreendente de uma velha fantasia. Aprumou-se, caminhou para o ponto de ônibus e, ao passar pela igreja da praça, fez um sinal da cruz de agradecimento. A fé que perdera em algum lugar da infância pareceu-lhe ressurgir, ainda que por essa via exótica...Erótica.


Sam, 2005

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Paraíso

É já tarde da noite, não sei nem quero saber as horas. Debruçado na janela de meu quarto olho a madrugada calada que se abre de quando em vez para o grito de um algum notívago, uma gargalhada bêbada, um escapamento desmiolado de moto. Uma brisa resistente me traz o cheiro úmido que precede o nascer do sol. Está quente.

Acendo mais um cigarro, quase inconsciente do vício continuado e o luzir da brasa me faz lembrar antiga e reiterada resolução de deixar de ser idiota. Um trago de culpa e os pulmões cheios de fumaça me tranqüilizam, encolhidos em seu início insinuante de enfisema ou câncer ou ambos.

Desisto de dormir, apenas tomo banho e me visto para o trabalho, deixando a camisa no encosto de uma cadeira para não me abafar de todo. Está quente.

À hora de sempre, bebo um café e mastigo uma fatia de pão-de-forma com manteiga, visto a camisa, desço, cumprimento o porteiro que me retribui com um chiste provocador sobre a derrota de meu time de futebol na noite anterior. Por educação, xingo o time dele, rimos, ele me entrega o jornal e seu saio à rua sob céu azul acizentado. Está quente.

No ponto de ônibus, me chama a atenção uma mulher que conversa animada com uma amiga. José de Alencar a diria cor de jambo, outro de cor de pecado, aquela pele morena. Os cabelos negros e longos fingiam-se presos por uma fita vermelha, se não de seda, similar, enlaçada da nuca até o alto da cabeça, emoldurando seu rosto redondo. Meu ônibus é irregular em sua freqüência e olhar a mulher me distrai o tempo.

Coloco óculos escuros para poder observá-la com mais calma e menos constrangimento, meu e dela, com minha insistência em olhar. Mais baixa do que alta, seu corpo se envolve em uma blusa de tecido estampado, transparente como parece estar na moda, deixando ver o sutiã preto, simples, sem renda ou adornos. Aliás, desnecessários adornos ou rendas quando sustentam belos seios como imaginei serem os daquela mulher pela curva suave, levemente abaulada, de suas formas. São seios fartos, mas sem exageros, separados entre si pela distância de um lábio. Está quente.

Aqueles seios me levaram a um lugar que vi em fotos, lugar de uma queda d’água chamada, como sói ocorrer com tais acidentes, “Véu de Noiva”, quando um rio passava por entre duas formações rochosas gêmeas e despencava em vapores por algumas dezenas (ou centenas?) de metros. Rio de águas refrescantes. Está quente.

Ri silencioso e encabulado de minha associação de idéias. Há quanto tempo não transava? Quantos dias mediavam aquela manhã da última noite tórrida entre lençóis com uma mulher sob meu corpo? Se parei para lembrar, é que era tempo demais.

Imerso nessas elucubrações hormonais, quase perco o ônibus, sendo resgatado pelo movimento e esbarrões à minha volta. De modo automático, subi a escada e enfiei-me entre os outros passageiros, todos entalados e enlatados no coletivo, cheio de estudantes e trabalhadores apressados em chegarem a seus destinos. Não consegui avançar muito e estaquei no centro do corredor entre as duas filas de pessoas postadas ao pé dos bancos duplos, à minha frente um sujeito obeso e suado que usava ambas as mãos para se segurar nas barras fixadas no teto. Devia ser bancário, com sua camisa social azul clara de manga curta de tecido e corte baratos, um gravata de cor predominante vinho e calça jeans apoiada no topo de largas nádegas, pois mais para cima seria impossível abotoá-la contra uma enorme barriga que pendia de seu tórax! Devia ser enorme, pelo menos à face da distância entre o bancário gordo e a bunda à sua frente!

Desisto do bancário e me viro de frente para as janelas laterais do ônibus, para ver a paisagem concreta de prédios e casas da cidade por sobre uma cabeça irrequieta. É a cabeça da mulher que eu observara no ponto de ônibus e, neste instante, graças a uma curva, percebo que aquela cabeça estava ainda acompanhada pelo corpo, jogado para trás, para mim. Está quente.

O ônibus está lotado, culpa não é minha e Deus é Pai, não há de abandonar seus filhos, ainda que pródigos ou ingratos, penso como que me desculpando à morena por premir-lhe as costas, quiçá um pouco da bunda, com minha pélvis. Ela não me nota, sequer olha para trás, mantendo-se loquaz na conversa com a amiga ao seu lado, também em pé. Está quente.

Tentando desviar a minha atenção de sua bunda, tento captar detalhes de seu rosto em perfil. A testa larga desponta quase reta entre os cabelos e encima olhos pretos ou castanho-escuros que se debatem de um alto para outro, do rosto da amiga para além e depois para fora do ônibus para retornarem o mesmo percurso, aleatoriamente.

Acelera. Freia. Curva. Meu corpo colado no da morena e reagindo mecanicamente ao atrito, ao movimento e à pressão. Sangue em tecido cavernoso, fico obviamente excitado e me assusto se a obviedade é sentida pela morena, mas ela continua falando com a amiga. Me envergonho perante eu mesmo ao me ver como um daqueles adolescentes a tirarem sarros das bundas das meninas em aglomerações quaisquer, seja em passeatas estudantis, seja em ônibus, seja em fila... Está quente.

A amiga da morena me percebe e me lança um olhar que acho ser de furiosa e contida indignação, mas desconheço se por estar colado à sua amiga ou se por não estar colado à sua bunda...Noto a amiga: é pintada de loira, mas as raízes dos fios de cabelo recomeçam a enegrecer...Mais uma “paquita” desiludida? Ou somente mais uma a utilizar-se do incrível arsenal de armas e ardis femininos de sedução? Não sei, não quis saber, todo centrado que estava na morena. Me pergunto porque a loira não me denunciou à morena.

Perco meu contato com a realidade, minha visão ocular fixa em um ponto qualquer deste horizonte mutável que se deslinda pela janela do ônibus enquanto meu outro olho, o da ilusão, o olho da visão oscular se mira e se perde em sua visão...Divago. Está quente.

Deixei o ônibus trafegando com meu corpo dentro e vou de súbito para uma réstia de praia espremida entre morros de mata verde e o mar. Vejo a morena chegar, vestindo a mesma blusa agora diáfana e uma minissaia de couro...Numa mão as sandálias de seus pés descalços, na outra uma bolsa de viagem, quase um saco de marinheiro. Ela vem caminhando pela areia, passa por mim sem me perceber e segue por uma picada na mata...

Acompanho seu andar, agora mais dançado, os quadris em largos movimentos de pêndulo, mais coleante porque se move na areia da praia, os pés nus afundando no chão macio. Está quente, mas há refrigério no ar.

Corte.

A morena sai da mata. Os mesmos quadris envoltos em um pano de estampa indiana estilizada, os seios, contidos em um sutiã de biquíni vermelho. Os cabelos agora estão soltos e cheios, emolduram seu rosto. Distingo as curvas da cintura...O umbigo centrado...A barriguinha... Está quente, sopra uma brisa da terra para o mar.

Ela se aproxima e vou minimalizando. Vejo seus pelinhos do braço aloirados de sol no contraste com a tez bronzeada. Vejo seus braços agitados buscando o equilíbrio...As mãos remando com graça, como sereia do ar. A estreita trilha de penugem que nasce no umbigo e descai para dentro da canga.

Estou sentado na beira da água, cavando e construindo castelos de areia molhada, línguas de água do mar cavando seus caminhos. Está quente.

Ela para à beira d’água, um pouco distante de mim, estica a canga na area e corre para a água, os pés chutando a espuma, depois as cristas, já aí ela aos pequenos pulos. Vejo seus seios acompanhando aos pulos os pequenos pulos, depois eles se escondem atrás de suas costas. Os quadris disfarçados por um pouco de tecido em triângulo que começava onde deveria acabar e terminava como um cinto fino em torno da cintura.

Interessante a fixação humana por esta especial parte da anatomia...Homens e mulheres se olham nos olhos e depois, havendo a oportunidade, estudam, admiram e desejam aquela carnuda região uns dos outros, eles delas, elas deles e, para ser moderno, tá bom, eles deles e elas delas, conforme cada um. No caso da morena, era toda redonda, cheia, plena, um mundo, como a Terra, achatada nos pólos...

Lembrei Tim Maia soando na minha cabeça..."Desbravador dos Sete Mares". O sol queimava minha pele e ofuscava meus olhos reforçado pela luminosidade refletida na areia branca e na água. Está quente. Tiro a roupa e de cueca entro no mar.

Dou azar...Ela saiu, foi para a areia e, afogado na minha frustração, acompanho seu corpo deslizar e deitar na areia. Já não tenho timidez alguma, regurgitei minha vergonha na salinidade e parto decidido para a morena de biquíni vermelho deitada na areia até lhe fazer sombra. Minha cueca pode ser confundida com uma sunga, penso repentinamente aliviado.

Puxo conversa, qualquer coisa, falo do tempo, da beleza do local...Pergunto se é nativa ou visita...Olho para as mãos, vejo um anel dourado no anular da mão esquerda. Tentando ser discreto, perscruto a vizinhança temendo encontrar o outro anel vindo na direção da minha boca como jóia de punho cerrado, mas nada há, só a mata balançando na brisa.

Ela é simpática, talvez receptiva, e me sento ao seu lado, cada vez mais falante, mas reduzo a verborragia me lembrando de um desses conselhos tão repetidos em revistas sobre agradar às mulheres: gostam de homens mais quietos, que saibam (pareçam?) ouvi-las. Quem muito fala de si pouca importância dá á ela, dizem os magazines...

O sol se põe, rápido como por-do-sol em sonhos e uma lua inimaginável se posta no céu. Desconfio que não sonho mais, minha imaginação não criaria algo assim...A pele da morena se eriça, um pouco pela temperatura que caiu com o astro-rei, um pouco, quero acreditar, pela excitação de minha eloquência. Os bicos dos seios enrijecem e sobressaem sob o tecido do biquíni. Que seja de tesão!, oro.

Sou todo concentração em palavras, gestos, nuances, tentando fazer minha linguagem corporal tão persuasiva quanto espero esteja sendo meu pequeno discurso amoroso. Ela sorri e me faz ainda mais falante e me lembra que devo ser também ouvinte e a ouço fingindo atenção, a mente toda sufocada pelas sensações de prazer que me irradiava aquele corpo tão próximo do meu.

Um silêncio desceu, apenas nos olhamos e, como nos filmes, resolvi beijar aquela boca que estava entreaberta em meio a uma palavra qualquer. Um beijo suave, quase tímido, medroso da rejeição, que depois aqueceu-se, turbinou-se e converteu-se em tumulto de lábios e línguas enquanto nos colávamos um ao outro e eu sentia a pressão de seus seios e de seu quadril em mim. Autômatos, nos deitamos eu sobre ela, para inverter e me deixar dominar por aquela boca me sugando, os cabelos longos dela emoldurando nossos rostos, velando-os a qualquer curiosidade de estrelas e tatuís.

Antes de qualquer intenção emergisse em mim ela caçou-me em meu calção, me expôs, me provou faminta, quis me extinguir em sua garganta. Subiu pela minha barriga, mordiscou-me mamilos, me cegou com a visão de seu colo. Ágil, me montou, cavalo manso, quase um pangaré, escondi-me dentro dela.

Ela se pôs sobre mim ereta, amazona de cabelos longos, soltou o nó do sutiã e me transportou a outro sistema solar, a outro planeta, um sol moreno que me sorria, duas luas brancas, assolado por abalos sísmicos como jovem geo. E era domadora, bailarina, martelo, tempestade.

Tempestade que veio se formando, se avolumando, em sons, vento e fluidos, até um grande estrondo e então gritos e gemidos.

A minha cabeça doía, senti o gosto de sangue, mas não consegui me mexer, achei que batera em algo duro como ferro. Abri os olhos dentro de um mar de sangue, corpos empilhados acima de mim. Alguém falou algo sobre uma batida terrível. Ouvi sirenes. A voz fria de um homem disse que eu estava muito ferido e gritou com alguém que talvez eu não resistisse às hemorragias. Senti-me morrer. Cheguei a um tunel escuro e longe uma luz muito brilhante me chamava. Corri sentindo o corpo pesado, plúmbeo, atravessei a luz. Cheguei na praia. A mulher de cabelos longos me olhava nos olhos com um sorriso aberto e tranquilo. "Estamos juntos para sempre."


Sam

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

A Voz


Toda voz que se aveluda
Em noites cálidas ou não
Entre lençóis ou sob estrelas
Sons e palavras, ais e palavrões

Toda voz que se confessa
Amante ou amada
Paixão ou só tesão
Taras, versões, qual seja!

Toda voz que se emudece
Na garganta do outro
Que nasce do ventre
Para soar forte no gozo.

Toda voz que arranha
Costas na relva ou areia
Ecoando entre pernas abertas
Entrando fundo nos lábios abertos.

Toda essa voz
Em qualquer lugar
Em qualquer língua
É veludo rasgado
É ventre lavado
É amor, paixão, tesão
É sexo, é perversão
É do animal, todo som
É humano, pois não!


Sam, 2005

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Fatalidade

Para o çaite Anjos de Prata (http://www.anjosdeprata.com.br), sobre o tema Fatalidade:

Lembrava-se quando a decisão se solidificou em sua mente e tornou-se concreta no guichê da faculdade em que entregou os documentos da matrícula. Mais de trinta anos havia se passado desde o dia em que interrompera os estudos de direito até o dia em que formalizou o retorno ao curso, a volta às aulas para preencher o tempo ocioso que a aposentadoria por doença lhe dera. Com a doença cardíaca diagnosticada e sob monitoramento, a concordância foi geral na família, entre os amigos e mesmo o médico, seria salutar para ele ocupar-se sem estresse ou trabalho pesado, apenas ler, memorizar, entender.
Na sua idade, as fatalidades se contavam aos borbotões, gente de sua geração que esticou as canelas num piripaque da saúde e deixavam a vida pela porta subalterna dos obituários e dos avisos fúnebres resumidos de pouco custo.
E, junto com as caminhadas diárias, reentrou na faculdade como modo de se manter vivo por mais alguns anos.
Depois de alguns meses de difícil adaptação aos colegas de turma, todos jovens da mesma idade de seus filhos, acaso os tivesse, estava já bastante entrosado nas conversas de corredor entre as aulas, nos trabalhos de grupo e mesmo nas provas, em que seu ego se satisfazia fornecendo dicas e colas para os jovens inquietos com tanto a fazer que não guardavam tempo para estudar entre baladas e namoros.
No início do segundo semestre, ela chegou, transferida de outra cidade.
Dezoito anos, cabelos negros ondulados que deixou crescer longos até o meio das costas, uma pequena tatuagem de “fada” na base do pescoço, quase à nuca, que se vislumbrava ou quando ela prendia os cabelos em um coque improvisado preso por uma bic ou em algum movimento de riso. E ela ria deliciosamente, um misto de risada infantil com um acento de mulher, um tom de ambigüidade que parecia a ele de uma sensualidade extrema.
E por diversas vezes ele se pegou distraído na aula de introdução à ciência do direito pensando que não havia justiça em ele ser tão mais velho que ela, não havia direito em ela sequer notar-lhe a presença, não havia equidade entre a atração que ela exercia nele e a indiferença que ele sentia nela.
A situação foi saindo do controle, ele sonhando na madrugada com aquela jovem ninfa correndo nua pelos corredores desertos do vetusto prédio da faculdade, perseguida por um sátiro com as feições envelhecidas e um membro rígido como a espada de Têmis.
Não assistia mais às aulas, mas à ela apenas, decorando e desconstruindo aquele corpo viçosas, de carnes que intuía macias e substanciosas, sem sinal algum de flacidez ou ação da gravidade, as ancas largas, a bunda protuberante, a cintura fina, os peitos de limão galego. A boca como de uma boneca se movendo e que em sua imaginação sussurrava seu nome e dizia obscenidades.
Ela estava naquela idade em que tudo é bom, tudo é gostoso, até os cheiros, os hormônios, os dentes brancos, a língua que passeava umedecendo os lábios. Uma idade fatal, arrebatadora, que escravizava homens maduros que buscavam a vida para si, ainda que a que existia nos outros. Vida que veio dela, nos sonhos molhados, em forma de ereção e que serviu ao espanto da esposa esquecida daquelas atividades noturnas.
Um dia a mulher viajou para visitar a mãe em seu nonagésimo aniversário, ele não a acompanhou por causa das provas de final de ano. Ah, os jovens! Sempre tão despreocupados com o futuro, marcaram uma chopada de comemoração e o convidaram para auxiliar no churrasco em um sítio especialmente alugado para o evento. Ele foi. Ela foi. Ele a viu à beira da piscina, um minúsculo biquíni que mal e mal escondiam os bicos daqueles seios novos a contar estrelas e que praticamente servia apenas para não deixá-la nua, um pequeno triângulo na frente à guisa de tapa-sexo, outro nas costas, acima da bunda rígida. Ela bebera além da conta, fumara alguma maconha, reconheceu-o após meses de anonimato e tascou-lhe um beijo fogoso e brincalhão na boca. Tirou-lhe o ar e não devolveu mais.
Ele morreu fulminado por um AVC insuspeitado. Uma fatalidade, disseram todos que consolaram a jovem ninfa culpada; fatal idade, disseram os amigos e parentes dele em seu velório, ao qual a esposa não chegou a tempo.