sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Sobre ter iniciativa.



Acordou naturalmente naquele fim de manhã, sem despertador ou outros ruídos. Aquele quebrara ontem, friamente, após decidir que lhe fazia mal o trinado matutino em quase todo dia. Os outros afastados pelas janelas fechadas. O pouco de som que vinha de fora era abafado pelo rumorejar do ar condicionado. Na penumbra proporcionada pelas cortinas de blecaute ele piscou várias vezes para dar tempo à consciência, retomar a mente ao ponto em que a deixara ontem de noite. Um profundo suspiro de total relaxamento e ele se levantou da cama, despreocupado de hora e arrumações.

De cueca e camisa velha foi até a cozinha e passou um café na cafeteira elétrica como se cumprisse um ritual. De caneca na mão, abriu a porta e pegou o jornal que o proteiro deixara na soleira do apartamento, sabendo que não queria ler as notícias, só o horóscopo, que leu displicente, signo a signo, sem se dar ao trabalho de memorizar qualquer dos prognósticos do astrólogo.

O café suprimiu o travo amargo do vinho barato que tomara no jantar com a ex-esposa, apenas para os acertamentos finais do divórcio, assinado e homologado perante o juiz poucos dias antes. Como em todo divórcio, restaram alguns pontinhos da relação para serem acertados e que não cabiam em petições e arengas judiciais, ainda mais quando fora pedido consensual; coisas de pequena monta, diminutos resgates de mágoas passadas que se disfarçavam de sincero perdão recíproco.

Agradeceu mesmo a gentileza de Maria de deixá-lo almoçar com as filhas fora dos dias acertados no regime de visitas, uma pequena concessão após a rendição, em troca dos bens renunciados e da graúda pensão fixada, com a ressalva expressa de que no futuro ele só veria as meninas nas condições judiciais, bastante restritivas, por força do retrato colorido e pouco meritório que dele pintaram a Maria, as testemunhas, a assistente social e a psicóloga forense. Ele, pouco afeito às ciências humanas e psicologismos, surpreendeu-se com a quantidade de síndromes, distúrbios e psicopatias que podiam assacar a um ser humano, no caso ele mesmo.

Na sala, viu a pasta largada no chão, alguns papéis saindo pelos cantos, entre eles o malquerido termo de rescisão de contrato de trabalho e a indignificante guia de seguro-desemprego.

Quase riu ao lembrar daquela repisada história de que o ideograma chinês que significava “crise” era o mesmo de “oportunidade”, que na ultima semana fora repetida para ele dezenas de vezes em e-mails, telefonemas e constrangidas conversas com ex-colegas de trabalho. Nunca gostara daquele papo motivacional de recursos humanos, sempre encarara de modo cínico as dinâmicas, os quadros de aviso, as circulares e todos os instrumentos criados para “levantar o astral” de quem levava uma porrada da vida. Vida é assim, uma porrada aqui, um beijo ali, vida que segue e nada se podia fazer sobre isso, essa sempre fora sua filosofia...De vida.

Acabou o café, foi escovar os dentes, se viu obrigado a olhar-se no espelho. A barba por fazer. A cicatriz na testa daquele acidente de moto que o deixou na uti por mais de uma semana. A cicatriz no pescoço, outra uti, mais longa, com direito a uma coma. Lembrar disso tirou a poeira de outras recordações hospitalares. Aquela crise alérgica. A operação de apêndice supurado.

Nestes momentos achou que iria morrer, que estava frente à frente com a morte, com seu destino final, mas sempre seguia, sempre haveria uma outra vez.

Olhando-se ali no espelho, resolveu que a tudo burlaria: à justiça, à ex-mulher, aos amigos, parentes, todos...Até aos médicos e hospitais...

Voltou para o quarto, despiu-se, abriu a janela do quarto, deixando entrar o ar e o burburinho da cidade. Daquela altura, via longe por entre os prédios, ruas, o céu azul de sol forte.

Viu seu horizonte estreitar, a calçada se aproximar e sorriu o sorriso ao sucesso, a todos burlaria, até à vida, até à morte, que não escolheria nem o dia, hora e local de o levar. O último encontro deles seria marcado na sua agenda, não da ceifadora.

Não sentiu dor, nada.

Sam
10.02.2006
Publicado originalmente em Anjos de Prata

Improviso: Teu gosto de mulher


Ah! Que tua boca se esconda na minha,
Lá faça ninho e se guarde, até a noite
Até a hora de sair em voraz caçada.

Ah! Que a noite chegue e te encontre
Próxima a mim, nua diana, e na boca da noite
Serei luz e sombra em tua pele.

Ah! Que eu fuja de ti em tua direção
Correndo a trilha do vale de teus seios
Caminho atapetado por penugens aloiradas.

Ah, e que não me alcançes, boca e mãos,
Antes que eu te alcance e me esconda,
Cobra sinuosa disfarçada, rija, em ti.

Ah! Em meu esconderijo em você,
Sedento, tomarei em tua intimidade
Teu gosto de mulher, vida!

Sm
24.02.2006
Originalmente publicado em comunidade Orkut

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Calor







Uma chama em tinto vinho

A cor rubi, a luz de abajur

Uma rolha e seu gargalo.

Uma tarde sem trabalho.

Teu corpo assim moreno

De biquíni e sol marcado

Não namorado ou marido

Sou apenas teu pecado.


Cheios, teus seios

Cabem certos, me apertam

Me deixo entre eles,

Como um ensaio


Sem pelos, teu sexo

- Meu pedido atendido -

Minha boca cala

Fundo, minha língua.


Depois, acesos nós

Apago-me em você

No calor de teus furores

De tuas convexas concavidades.


Sou então nem namorado,

Nem marido, sequer pecado

Apenas como pequeno enjeitado

Um maior abandonado.


Sam
21.02.2006

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Improviso: Sonho...


Em sépia, tua imagem me assombra
Tu, fantasma, me alimenta cada noite
Sou teu vampiro, és minha hospedeira
Teu seio em minha boca,
Sua boca em minhas veias
Trocamos lugares, posições,

Em vermelho, tua imagem se assoma
Me engole com teus grandes lábios
Sou caça, presa, preso em você
Me envolve, mastiga
Me espreme, deglutes.

Em preto e branco, tua imagem é sombra
Me segue, persegue, permeia
Me tens ao meio, em teu meio
Cativo em ti, morro.

Em todas as cores, nesse sonho
Enlouquecido me agito
Vou e venho, indeciso.
Morro e ressuscito.

Sm
13.02.2006
Pub. originalmente em comunidade Orkut